Arrumadinhas (Marcelo Lamas)

Sempre preferi as princesinhas. Aquelas que iam arrumadas para a escola, que combinavam o prendedor do cabelo com a estampa da blusa. Se entrar a Miss Brasil desarrumada e uma outra “normal”, mas ajeitadinha, eu só vejo a não titulada.

Quando eu tinha uns nove anos cometi um delito grave com uma guria dessas. Ela era uma índia muito linda. Eu fui lá e passei a mão nos glúteos dela. Acho que eu não era um tarado precoce. Devo ter imitado os líderes mais velhos da gangue. Ela e uma amiga foram até a minha casa e fizeram uma reclamação formal. Recebi punição severa. Eu tinha uma irmã, então eu deveria respeitar as outras meninas e por aí foi a reunião, que cancelou mesada, futebol, televisão e audição de música no carro. O problema é que a morena cresceu e virou a número um do colégio. Segundo os outros eu tinha chance com ela – será que ela preferia os caras de óculos? –. Mas eu, eternamente envergonhado, não tinha coragem de olhar para a guria.

Na faculdade de engenharia, bem escassa de mulheres, apareceram duas retardatárias no final do curso. Eu só enxergava uma. A outra não se ajeitava. Um colega me corrigia: “Cara, tu tá loco! Ela é gata. Olha o corpo dela!”. No dia da formatura eu vi que ele estava certo. A falsa-magra toda produzida deixou aquela que eu admirava no chão.

A minha namorada treina kickboxing, assiste ao canal Combate, gosta de futebol e anda de skate, mas outro dia ela me confidenciou que não consegue mais ficar sem esmalte, de tanto que eu falo da minha admiração pelas meninas vaidosas. Certa vez, em Buenos Aires, um argentino tentou ver as horas no relógio dela e curioso, perguntou-me se havia fuso entre nossos países. Aí eu percebi que o relógio dela estava parado. A pilha tinha terminado, mas ela levou-o porque combinava com a roupa. Recentemente, numa viagem de três dias que fizemos, ela levou cinco relógios pra garantir os looks.

Quando eu ventilei que escreveria estas passagens, ela disse que me mataria. Bem, supondo que ela “apenas” termine o relacionamento, se eu tiver que procurar outra namorada o perfil da pretendida já está bem definido. Desde sempre.

Por Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

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2 respostas para Arrumadinhas (Marcelo Lamas)

  1. A beleza feminina pra mim não se discute. Arrumadinhas ou desarrumadas a beleza sempre sobressai, sobrepuja questões menos relevantes como a cor do vestido ou a marca do sapato.
    Mas lendo tua crônica percebo o quanto as mulheres se parecem em alguns aspectos…

  2. Pingback: Arrumadinhas (Marcelo Lamas) | Cooperativa das Letras

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