Escritor Convidado: Marcelo Mirisola

Sítio Solidão

Um imbecil com lenço de pirata na cabeça e duas garotas assustadas dentro de um aquário em forma de peido congelado. O arremedo de Thomas Cavendish fazia sua performance e tentava impressionar os pedestres executando malabarismos com lascas de peixinhos coloridos, constrangimento total. O susto foi grande não exatamente por causa do pirata de butique, mas pela invasão propriamente dita. Agora não lembro, mas eu acho que o chaveiro da esquina também se escafedeu. Eis o que sucede. Despejaram seu Antenor e dona Amarílis da mercearia, os velhinhos que me apresentaram o queijo minas do Sítio Solidão. No lugar deles, uma temakeria.

Para mim, o velório começou quando passei pelo falecido Ponto Azul, no mesmo quarteirão, lá na Xavier da Silveira, esquina com Nossa Senhora de Copacabana. Muito barulho, e porradas atrás dos tapumes.

Obras, business. Essa praga – pior que gripe suína, porque não existe vacina pra babaquice – começou faz uns dez anos na av. Pedroso de Moraes, em São Paulo, e espalhou-se descontroladamente pelo país. O termo adequado (que me dá ânsias de vômito), perfeito para o estrago que vem causando, é “releitura”. O primeiro boteco “relido” foi o Pirajá. São meus conterrâneos paulistas a estuprar o Brasil, mais uma vez. Agora, a volúpia bandeirante corre solta pelas ruas do Rio de Janeiro, os filhotes de Fernão Dias também chegaram na Lapa e transformaram o reduto da malandragem carioca num playground para mauricinhos metrossexuais desfilarem suas sobrancelhas e peitorais depilados. Um futuro de banheiros impecavelmente limpos, e milhões de televisores de plasma ligados dia e noite. Galvão Bueno é o novo Tio Sam replicado de norte a sul, de leste a oeste recrutando você para ser um guerreiro no país da Brahma. Três dólares um chope. Inferno! Enfiaram a Vila Madalena dentro da Lapa! Os putos vendem tremoço a preço de trufas da floresta negra e o freguês, opa!, quero dizer, o “cliente” não pode sequer pedir para diminuir o volume da televisão.

Bem vindos ao mundo dos bares cariocas que imitam a arquitetura paulista de demolição, digo os bares da Vila Madalena, inspirados em – pasme! – bares cariocas da metade do século passado. E o pior, o monstrengo se reproduz e pode se transformar em temakerias, gnomerias, pizzas de chocolate com borda recheada de esperma ou o diabo a quatro que o valha… porque nesses lugares nada de original acontece, aliás, desacontece: num lugar onde o chope custa 3 dólares, chiclete não se mistura com banana. O Haiti é aqui. E a Tóquio mais infantilizada também.

Voltando a Copacabana.

Há pouco tempo, aquele quarteirão do cine Roxy era memória latente dos anos que eu e Cacá vivíamos felizes. Eu passava por lá, chutava tampinhas e entrava em suspensão. Um pouco por causa do João Antonio. Outro tanto porque era assim mesmo, alegria de graça. Os falecidos Ponto Azul e a mercearia de seu Antenor e dona Amarílis eram extensão da nossa felicidade, quando éramos Ginger & Fred antes da decadência e fingíamos que a cidade não turvaria. Ela me esperando no hall do prédio, amiga do zelador boiola. Eu, recém-chegado de um pôr do sol entre os postos 5 e 6, trazia areia nas canelas e a lembrança das mulatas grudadas na testa. Era nossa rotina. Cacá adivinhava minhas falcatruas, e eu a amava porque ela possuía os ais e os cais naquele olhar que primeiro me fuzilava para logo em seguida me perdoar de todos os pores de sóis desse mundo.

Rio de Janeiro, 2005, 2006. Vivíamos encantados. Todo final de tarde eu transformava a vida dela num inferno. Ela foi a primeira mulher da minha vida, digo mulher de verdade, e a partir de uma brecha na janela eu fingia que enxergava o Redentor e ela me achava um babaca, talvez por isso mesmo nossas tristezas e felicidades eram mais belas, como se Vinicius de Moraes nos abençoasse lá de Aruanda, no céu dos Orixás apaixonados.

Não me conformo. Meu sítio solidão virou temakeria. E agora tenho medo de atravessar a Bolívar e não mais encontrar o pudim de leite gigante no Madelon, nem o espanhol carrancudo que recusava cheques de outras praças e fazia questão de ignorar nossa felicidade. Tudo isso num raio de duzentos metros.

Aí nos separamos e eu fui morar no Grajaú. Claro, levei o Sítio Solidão comigo. E evitava Copacabana para conservar o amor num canto distraído da memória. Engraçado, as pessoas costumam ter déjà vu instantâneos. Eu não, lá na zona norte, por conta da minha implicância com flashs e insights, amarguei um ano de “déjà vus” intermitentes longe do nosso quarteirão encantado que incluía, além do meu Redentor desacreditado, o Panamá, um boteco genial na Domingos Ferreira. Onde o simpático Rogério, dono do pedaço de 30m², praguejava contra os direitos humanos e defendia a pena de morte enquanto eu – até aonde meu sotaque paulistano permitia – defendia as putinhas do calçadão, os ovos mal passados e pedia outra dose de uma bagaceira clandestina importada de Barra do Piraí. Atravessando a rua, bem na frente do Panamá, o melhor quibe do Brasil.

Antes de continuar, quero jurar – pelo Deus que Saramago vai ter que engolir – que essa não é uma crônica gastronômica; se vocês tiverem oportunidade não deixem de experimentar o quibe do Istambul: façam isso antes de o estabelecimento virar uma temakeria. Além do quibe, o Istambul tem história. Foi nesse mesmo árabe que, há seis anos, algumas lágrimas molharam meu rosto gordo na frente de uma garota sem coração. Ato contínuo ela me deu um pé na bunda, porque Deus existe somente para que os masoquistas, os trouxas e os comunistas possam amar: motivo mais do que plausível para se acreditar Nele e no Marquês de Sade, eu acho.

Um homem não chora todo dia na frente de uma mulher. Aliás, não era uma mulher e foi a primeira e a única vez que isso aconteceu na minha vida, e a idiota não entendeu nada. Também, no Istambul, tem um kafta de carneiro delicioso que pode vir acompanhado de arroz marroquino e babaganuch. Tudo perfeito, desde que a Cacá não fique sabendo dessa história das lágrimas: ela é muito ciumenta e nunca é demais lembrar que, segundo suas queixas, era eu o responsável por transformar a vida dela “num inferno”.

Ah, Cacá, não briga comigo.

Miguel me disse que você arrumou um negão depois que nos deixamos, eu compreendo. Se arrumasse um japonês aí eu começaria a duvidar do nosso amor, que se prolongava (uso a palavra propositadamente) até o forte de Copacabana, e passava necessariamente pela extinta boate Help, ah meu Deus, a Help foi o princípio do fim.

Eu sabia disso, eles começam destruindo os puteiros, e você escreve crônicas morais e cívicas, pede providências e os homens de bem acham que não têm nada com isso, depois confundem o narrador com o autor, cobram três dólares num chope e você paga, em seguida eles quebram o Ponto Azul e tudo bem, né? Até a hora que esses escrotos põem os velhinhos da mercearia para correr, invadem sua nostalgia e o expulsam de sua solidão.

Hoje, depois de ser despejado do Sítio Solidão, tenho vergonha da própria. Digo, da minha ex-solidão. Vergonha de andar pelas ruas de Copacabana. Tenho medo de não encontrar nossa tristeza, que era mais bela mesmo depois de a carta do Toquinho ter sido extraviada em 1974, nunca mais Vinícius nem Elizete para cantar as dores do amor demais. Que porra é uma temakeria, pra que é que serve essa merda?

Lá em Buenos Aires não é assim. Meu amigo Carlaccio garante que não. As pessoas – ele diz – não precisam se envergonhar de serem tristes e de andarem sozinhas pelas calles. Ele me garantiu que as crianças não freqüentam bares e as assombrações – isso é sensacional – ficam por conta dos fantasmas que exercem o ofício com sobriedade e elegância. Os fantasmas de Buenos Aires são de verdade, diferentemente das cunhadas e dos vultos mexeriqueiros saídos das obsessões do Nelson Rodrigues, aqueles que me atazanavam no Grajaú.

Os sem-déjà vu invadiram, ocuparam e depredaram meu Sítio Solidão. Arrancaram postas da minha tristeza que agora… agora, meu caro Vinícius, que o Chico trocou o samba pelos livros, é que nunca mais vai ter fim.

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Sobre o autor:

Marcelo Mirisola é considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário (os fofos).
É autor entre outros de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record).
Considerado por leitores como o grande mestre do conto da atualidade, injustiçado pelos jabutis da vida, mas que tem no seu fiel publico o maior reconhecimento que um escritor poderia querer.

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3 respostas para Escritor Convidado: Marcelo Mirisola

  1. Inacio Carreira disse:

    Sobre o post, sobre Marcelo, sobre Mirisola, sobretudo sobre tudo, só posso dizer:
    obrigado…

  2. Grande texto. Da primeira vez que li já pensei que devia publicar aqui. Obrigado ao Marcelo que gentilmente permitiu a publicação.

    Sobre o texto, lendo lembrei uma velha canção de Belchior:
    “- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
    De sangue e de América do Sul.
    Por força deste destino,
    Um tango argentino
    Me vai bem melhor que um blues…”

    Tem a ver;

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