Metrô (Inacio Carreira)

O olhar bate em um livro diferente. Formato fora do padrão de best-seller. Capa alaranjada. No miolo, partituras. Observo o título. La bohème… Quem segura tal livro? Um jovem ma non troppo… Olhos grandes, cabelos rareando, echarpe protegendo o pescoço. Cantor? Sim, talvez, nunca vi músico protegendo a garganta. Lembram do Pavarotti? Sempre com suas echarpes em volta do pescoço, agasalhando sua voz privilegiada e dando-lhe um ar de Prima Donna, ou melhor, Primo Uomo, que de Donna ele não tinha nada… E esse aqui, do metrô?

Nas mãos, o livro e uma lapiseira. Pentel. Amarela. Que, ao virar a página, segura entre os lábios. Ao achar o local desejado, resgata a lapiseira e escreve, faz marcações. Específicas. Talvez em suas árias, quando terá que praticar o staccato, o allegro, adagio… Tanta coisa… Quanto conhecimento! Estava com um blusão da Accademia Europea di Firenze, fizera lá um curso? Ou era professor em intercâmbio, trazendo o conhecimento milenar da música clássica aos nossos jovens? Sim, olhando bem, prestando atenção na atenção que o homem dedicava ao seu livro, onde aparentava estudar com afinco La bohème, ópera de Giacomo Puccini, com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado no livro de Henri Murger, Scènes de la vie de bohème: estreou no Teatro Regio de Turim a 1º de fevereiro de 1896, sob a regência de Arturo Toscanini. Como eu sei tudo isso? Google, cara, Google… E, no Google, a Wikipédia.

De repente apagam-se as luzes, as rodas guincham nos trilhos (como guincham as rodas do metrô, já ouviu? Sim, metrô é um trem, mas é bem mais rápido e mais leve, talvez esse o motivo do grande barulho). Não cheguei a cair (estava de pé), segurava nos apoios do teto e perpendicular ao chão, foi minha sorte. Muita movimentação, choro, o cheiro de excremento de cavalo começou a tomar conta do ambiente.

A iluminação era pouca, tochas, pareciam, velas, luzes bruxuleantes. Do chão, eu tentava apoio para colocar-me na vertical, posição que deu, ao homem, status privilegiado sobre os outros animais, além de deixar as mãos livres para outros afazeres: carregar objetos, lutar, perscrutar, amparar… Consegui, enfim, e por pouco não sou pisoteado por uma carruagem puxada por quatro cavalos… – Não olha por onde anda? (Nem sabia por onde andava, como ia olhar? Ai, o olhar estava baço, onde estava?) À sua frente, imponente edifício. Vem à mente a informação de que “as origens do teatro (o Teatro Regio, de Turim, as coisas começam a fazer sentido) datam do início do século XVIII, quando Vittorio Amedeo II decidiu encomendar ao arquiteto Filippo Juvarra o projeto e a construção de um grande e novo teatro, dentro do desenvolvimento urbano da Praça Castello”… Êpa, seria eu, agora, um receptor de informações? Teriam instalado um chip em meu cérebro e estava, então, em contato direto com a World Wide Web – www?

O apagão no metrô… O homem com a partitura de La boèhme… Sim, ele desce da carruagem, quase pisa em minha mão, está acompanhado por várias pessoas tão bem vestidas quanto ele… Ao pisar na plataforma de madeira, à guisa de calçada, que separa a rua – imunda, coberta de excrementos -, antes de entrar no Teatro, é ovacionado.

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, em sua Saudação a Walt Whitman, de 1915, brada: “Bebamos isto como um remédio amargo / E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida / Por quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão”…

Mas não é disso que estou querendo dizer. Ou melhor, eu pensava, agora, qual a razão dos atores desejarem, ao invés de Sorte, ou Boa Sorte, Merda… Que inclusive é título e tema de uma canção de Caetano Veloso, gravada ao vivo em 1986, com a parceria de Chico Buarque…

Novo curto-circuito cerebral e vi, em tecnologia 3D (sem óculos, só a força de vontade, ou seja lá o que seja) três justificativas à saudação, sendo que a primeira veio dos palcos, mesmo: segundo minha diretora de teatro dos tempos de colégio, no Instituto de Educação Canadá, em Santos, a expressão teve origem na Grécia Antiga. Segundo ela, “naquela época os atores se apresentavam em anfiteatros e suas peças, por serem bem críticas, afetavam os políticos ou alguma classe social. Enfim, se eles não gostassem das críticas representadas naquele fenômeno que era o teatro, atiravam merda nos atores. Por ironia do destino, os atores não ficavam por baixo com isso, porque quanto mais merda era atirada neles significava que mais repercussão teria o espetáculo. Afinal, eles tinham conseguido seu objetivo. Eles estavam lá era pra incomodar mesmo!”…

Acordei com saudades daquele tempo, em que os políticos tinham vergonha na cara. Hoje dizem, simplesmente, que ignoram os fatos… Ou seja, que são ignorantes! Depois da Lei da Ficha Limpa, que venha a Lei da Ficha Inteligente, urgente…

Inacio Carreira

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2 respostas para Metrô (Inacio Carreira)

  1. Eis um texto moderno. Cheio de referências, inferências e imagens; e que imagens!?
    me senti na própria world wide web ao lê-lo mestre.
    Pauleira!

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