Onde está teu irmão? (Inacio Carreira)

Abel, a primitiva vítima

 “Não sei, sou eu tutor de meu irmão?” Chorei quando ouvi essas palavras. Eu já as havia ouvido, mas não nesse contexto. Não depois que meu irmão resolveu abandonar a casa de nossos pais. No que ele era diferente? Ou melhor, vendo de outro ângulo, no que eu era diferente dele? Filhos do mesmo pai e da mesma mãe, criados sob o mesmo teto. Com diferença de dois anos frequentamos a mesma escola (ele nasceu primeiro), fomos às mesmas festinhas de família, dos filhos dos amigos de nossos pais, éramos como agulha e linha, como falavam os mais velhos. Inseparáveis.

Até que mudou. Eu ou ele mudamos? Ambos, decerto. Mas foi uma mudança radical. Enquanto eu continuei com as aulas de violino, ele abandonou o piano para tocar lata, ou quase: entrou para um programa de música experimental em uma associação de periferia, furou as orelhas (alargador, disse ele, para arejar as ideias), começou a fumar coisas que não são vendidas nos bares, usava incenso em demasia (para espantar os maus fluídos, justificava), banho só vez em quando, cabelos seguindo moda dos etiópicos. Será que ele sabia disso?

Não importa. Quantas vezes meu pai ou minha mãe perguntaram, tal qual o Senhor: “Onde está teu irmão?”. E eu não sabia dizer, ou não queria, na maior parte das vezes. Não podia? Ia mudar alguma coisa?

Ele, por ser mais novo, meio adoentado, foi cercado de gentilezas. Talvez, por isso, sem querer parecer psicologístico, cresceu em um mundo irreal. Onde o estudo, a carreira, o casamento, o futuro não tinham papel. Ou ele não tinha papel nessas funções. Não se via responsável, somente tutelado. Passou sua infância mimado por três pessoas embora eu, a pessoa mais nova dessa tríade, não gostasse muito do que era obrigado a fazer. Escondido, mostrava minha verdadeira face, talvez com isto afastando meu Abel de estimação. Matando, nele, o que de carinho pudesse haver por nossos pais e por mim próprio.

Será? Não sinto culpa, creio que se fosse essa a hipótese eu teria. Sim, teria, tenho certeza.

Mas não tenho nada a ver com isso. Continuei meus estudos de música clássica, corro o mundo e vejo, em cada jovem à beira da calçada, quer na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, a meu irmão. Ou a um ser parecido com ele, que desistiu de lutar neste mundo onde a lei do mais forte prevalece. Que não tem espaço para culpados. Para covardes. Para os que vão morrer e saúdam, saúdam, saúdam… Não sei quando vi meu irmão pela última vez, mas sei, que logo depois deste fato, ele passou a viver somente em minhas lembranças. Que eu tentava manter o mais saudável quanto possível. Éramos, então, dois irmãos brincando de orquestra, eu o maestro, ele o spala, um prestando reverência ao outro, um tentando ser melhor que o outro. Ele conseguiu?

 Inacio Carreira

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3 respostas para Onde está teu irmão? (Inacio Carreira)

  1. Marcio Erino Ochner disse:

    Mesma educação com reações diferentes, típico do ser humano, não achas Inacio?
    Essas oscilações me apavora… pois eu como pai, quero acertar sempre na educação dos meu filhos… que assim seja.
    Abraços meu caro amigo!

  2. Tiago disse:

    Um conto muito bem pensado Inacio, me fez refletir sobre a estrutura da minha própria família, mas senti que havia por trás uma certa predileção dos pais por um dos personagens. Estou errado?

  3. Vana disse:

    Nacho! Socorro! Olha a idade dos irmãos!
    Conheci gêmeos idênticos: 1 internado numa U.D.Q. e outro geração saúde.
    Alguma coisa que a Piscologia possa explicar?
    Sempre haverá dentro do ser humano o Inefável.

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