Espelho, Espelho Meu (Vana Comissoli)

Margaerith mirou-se no espelho e sentiu o “Não” ordenando que parasse. Vacilou, mas não deixou de fitar o belo, translúcido rosto. Nunca vira olhos tão amendoados e profundos de um verde esmeralda camuflado num debruado de cílios longos e macios, negros como na noite mais fechada onde, a custo, a lua rasga espaços prateados.
A boca era cheia, sedimentada em rochas sensuais que se derretiam quando sorria. Balançou os cabelos negros, macios e salpicados de brilhante purpurina onde a luz incidia. Nem Vênus de Samotrácia teria um nariz tão perfeito e indiscutivelmente divino. Talvez o de Perséfone pudesse lhe fazer frente.
Tinha que reconhecer embora a modéstia lhe negasse esse direito: era linda. A mulher mais linda que o espelho já fixara.
Espelhos não são mesmo confiáveis por que um risinho de Silvana rosnou em sua boca e Margaerith se esfumaçou torcendo a boca cheia de escárnio onde os lábios afinaram em dois traços duros e os olhos fixaram um ponto que era nada e enegreceram em fundos poços. Os cabelos mostraram as pontas queimadas e duplas onde um creme ou condicionador poderia fazer milagres, mas não fazia.
A ira entonteceu os sentidos e levantou a mão para agredir a imagem tão verdadeira ou nem tanto, ou qual era a verdadeira face em meio à distorção que se oferecia quase prazerosamente aos desavisados? Golpeou sem muita força. Bem no fundo sabia que o sangue traria junto uma aguda dor de corte e de novo teria a ferida aberta por meses a fio sem que cicatrizante algum pudesse sanar o problema enosado no soco.
Lembrou que em algum lugar distante, perdida numa floresta onde tudo era pequeno demais e as cavernas lustravam diamantes que ninguém usaria, vivia uma princesa que esquecera o caminho de casa ou fora largada lá para viver uma vida que não deveria ser sua. Uma princesa deveria sempre se mirar em espelhos de cristal onde a imagem não acataria o peso dos anos e não haveria bruxas a espiar do outro lado para ver a pele se desmanchando.
Talvez se houvesse alguma mágica que lhe permitisse atravessar o espelho e enxergar pelo outro lado não sendo bruxa, pudesse perceber enfim a face que trouxera ao mundo para construir alguma coisa que esquecera por completo de tanto procurar a imagem dentro do espelho.
Quando chagava neste repetido ponto era hora do espelho falar e lhe dizer coisas ocultas que não queria ouvir e insistiam em bater à porta. Nesta noite ele se manteve quieto como todos os outros seus semelhantes, fossem feitos de água, prata ou vidro. Incrivelmente todos os príncipes que tivera saíram a cavalgar seus cavalos brancos pela sala pequena demais para tanta gente. Maçãs envenenadas se trincavam entre seus dentes e sentia o gosto acre da cicuta escorrendo pela garganta enquanto apertava forte na mão o vidro repleto de comprimidos fatais.
Alguns buscavam o beijo de Margaerith e outros mergulhavam incansavelmente na vagina de Silvana sem que nelas houvesse prazer por um ou por outro. Quem sabe aquele menino que, lá atrás, onde o tempo já esqueceu, pudesse fazer algum milagre e trazê-la de volta deste sonho real que vivia já há mais de quarenta anos e do qual não conseguia acordar.
Muita gente se pôs a chorar.Ela estava irremediavelmente morta dentro do vidro onde uma camada de prata, alumínio ou amálgama de estanho, se depositava quimicamente coberta com uma substância protetora.Ou era prisioneira das duas imagens dúbias? Ou de si mesma que não desabrochava nunca?
Se existem diversos tipos de espelhos, por que não encontrava nunca um do tipo plano que produzisse uma imagem virtual e simétrica dela mesma? Afinal a imagem dada por um espelho plano é do mesmo tamanho que o objeto, é virtual, uma vez que não se pode projetar num alvo, é direita e é simétrica, ou seja, invertida lateralmente. E real por refletir o que havia de concreto dentro do rosto espelhado, com olhos, boca, nariz e cabelos que não se torcessem ou distorcessem ao bel prazer em figuras que se sobrepunham conforme o latejar do coração e da mente.
Escapou da imagem misturada e antropomorfa e o olhar escorregou pelas paredes onde, pendurada por um prego desajeitado, uma menina se equilibrava instavelmente numa foto preto e branco. Era quase engraçado reconhecer que era bonitinha, mas não era a menina mais linda do mundo e talvez nem sequer uma princesa e não era também uma bruxa ou mulher malvada. Era apenas uma menina meio assustada com doces olhos expectantes que balbuciou algo em seu ouvido.
A mão se abriu e os comprimidos se misturaram aos cacos do frasco estilhaçado no chão. Em seguida, um raio flutuante entrou pela janela atravessando a grossa chuva e fez com que o espelho arrebentasse em mil pedaços. Um velho pensamento supersticioso escreveu rápido na lembrança: espelho quebrado são sete anos de azar. Estranhamente seriam seus sete anos de novas possibilidades já que azar significa o contrário de tudo que já aconteceu. Depois disso talvez não houvessem mais Margaerith e nem Silvanas a embaçar imagens. Por fim aparecesse a Maria das Marias, esse nome de batismo que misturou todas as imagens num enroscado sabor de desconhecimento.
Buscou a vassoura e recolheu os cacos assobiando pela primeira vez na vida. Uma imagem nunca é o que mostra, é apenas reflexo de algo que se transforma conforme a luz e o movimento e talvez fosse mesmo essa coisa cambiante, mas entre uma e outra haveria a si mesma num desfecho que não importa saber qual é, basta que se saiba que mostrará não mais imagens, mas uma pessoa real.

Vana Comissoli

Anúncios
Esse post foi publicado em Prosa e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Espelho, Espelho Meu (Vana Comissoli)

  1. Tiago disse:

    Mais contos de phadas da Vana. Cada vez melhor!
    E esse final? Um felizes para sempre bastante atual… Nada acaba de fato.

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s