Causa sine qua non (Fernando Bastos)

 

Andava sempre de olhar afundado como uma garotinha que fizera traquinagem na sala de aula. Algumas vezes cheguei a suspeitar que fora violentada na infância, ou que fosse lésbica, dado sua habitual distância que mantinha dos homens que a abordavam.

Ana Maria era o oposto de Mariana. Ela, gelo, minha mulher, fornalha. Até hoje tenho complexo de Bentinho, aquele do Dom Casmurro. Por mais que Mariana defenda a tese de que não me corneia, estou sempre com um pé atrás. Às vezes faz hora extra no escritório de advocacia, e sabe lá o que acontece nessas ocasiões. Amo Mariana, mas Aninha me incendeia. Comecei a namorar Mariana quando eu tinha 20 e ela 17. Mariana morava com a avó e uma irmã. Gêmea. No dia seguinte, da minha primeira noite com a então namorada Mariana, quando fui lavar o rosto, levei meu primeiro susto. Como Mariana podia estar no banheiro saindo de toalha, se havia dormido comigo e a deixei no quarto antes de descer as escadas?

Aninha percebeu meu espanto e, timidamente, sem me olhar na cara, disse Não sou Mariana, sou Ana Maria, a irmã gêmea dela. Mariana, para de brincadeira, falei, como conseguiu chegar aqui antes de mim? E, sem deixá-la responder, abracei-a e apertei aquele
corpo ainda molhado sob a toalha felpuda. Estou falando sério, disse ela, Por favor, vovó pode acordar e nos ver…Mariana não me falara nada sobre a gêmea. Fazia parte do jogo. Ela gostava de jogos. Eu adorava vencê-los. A cópia se afastou e foi para o quarto, segurando
a toalha de banho com as mãos rente aos seios. Quis possuí-la, mas o fiz só com os olhos. Despedi-me do tornozelo bem moldado, e da sola branquinha do pé, antes dela entrar no quarto e fechar a porta para terminar de se secar.

Casei com Mariana, a avó morreu, a gêmea ficou morando conosco, Mariana se formou em direito, e, depois de um ano de casamento, começou a fazer hora extra. Não me preocupava com os serões de Mariana. Quanto mais tarde chegava, mais eu aproveitava os momentos para saborear a visão daquele corpinho, defendido sumariamente por uma camisola de algodão que ia até a metade das robustas coxas, deitada sobre o sofá, lendo Clarice. Com o tempo, ela foi perdendo aquele medo de animalzinho selvagem, e deitava em meu colo para lhe acariciar a cabeça. Quando sentia o perigo, levantava, dizia que ia ao banheiro, depois voltava para me dar boa noite, a uma distância segura, olhando-me obliquamente.

No finalzinho do outono passado, houve um Congresso de advogados na capital. Minha mulher voltaria no domingo. Na sexta, comecei a preparar o cenário. Vinho Cabernet, a lareira acesa, um filme romântico, o convite. Hesitante, largou o livro, e sentou-se ao meu
lado no sofá. Puxei o cobertor, e nos enfiamos debaixo dele. Nem deu a metade do filme, e ela já estava bêbada. Eu sabia que estava errado, mas a carne é fraca. Os primeiros códigos de Lei já proibiam esse tipo de relação. O judaísmo, maior influenciador sobre nossa cultura, avisa em Levítico 18,18: “não tomarás a irmã de tua mulher,…descobrindo a sua nudez…”.
Mandei à merda a lei de Deus, abracei-a, sob pretexto de esquentá-la, e ela concordou. Em dez minutos, sumiram nossas roupas, e ela galopava sobre mim, no tapete da sala. Seu moreno corpo rebrilhava as cores do fogo da lareira, dando-lhe um aspecto sobrenatural. Coloquei um travesseiro sob seu quadril. Suas unhas arranhavam minhas costas, mas não me incomodei. De repente ela começou a falar obscenidades, que jamais havia sonhado que pudesse dizer. Levei-a para seu quarto, e deitamos em sua cama, na esperança de acordar antes que minha mulher chegasse da farra.

No meio da madrugada, uma réstia de luz trespassou a fresta da porta. Lentamente, um vulto de mulher assomou na penumbra, como uma hetera, que chega em casa depois dos compromissos. Cheirava a bebida e perfume masculino. Sem dizer uma palavra, deitou entre nós e me beijou.

 

 

 

 

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Uma resposta para Causa sine qua non (Fernando Bastos)

  1. Tiago disse:

    Hum.. Muy caliente.
    Revelando um lado humano tão presente e muitas vezes tão distante da literatura.
    🙂

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