Revolta cipeira (Marcio E. Ochner)

Cansado de chamar a atenção dos funcionários, revoltado, o chefe da fábrica solta: “Do jeito que estão fazendo cagada, terei que exigir que os Cipeiros coloquem no mapa de risco desse setor um círculo enorme, para Risco Biológico”.

Saiu falando alto para todos ouvirem. Mesmo com toda aquela barulheira das máquinas trabalhando no pavilhão, conseguia-se ouvi-lo até na Recepção. Novamente, enquanto chamava a atenção de mais alguns que por ali seguiam, andava apressadamente de uma máquina a outra… “Tá errado aqui, tu não está vendo?… Afrouxa lá, porra, vai arrebentar a maldita máquina…”

Beneto, cansado, seguia novamente para sua sala, nervoso, resmungando. Ainda estava tentando digerir aquelas conversar dos Cipeiros, que se reuniam na sala ao lado. Ele os escutava entre os biombos: naquela conversa tratavam de um tal Plano de Emergência… Beneto pensava: “Que merda é essa?” Permanecia ouvindo os discursos, cujo clamor adentrava a parede de plástico. Ele, quase que colado ao forro, escutava o plano. Nisso vê um de seus funcionários seguir para o refeitório, segue logo atrás, aproveitando para apanhar o maço de cigarros, fumando um no mesmo instante. Acompanha-o até fora da fábrica, deu suas baforadas e falou: “Que é isso, Zequinha, é café, não coca-cola, pega um copo menor, rapais… Já terminou o que tinha para fazer”? Nisso responde o Zequinha: “Não, Beneto, mas o novato ta cuidando da máquina…” Irritado, larga: “Tu deve ta ficando doido, se ele fizer merda lá, tu é que vai levar a comida de rabo, rapais!  Deixa pra toma isso depois, vá cuidar da máquina…” E o Zequinha abandona o copo e sai apressadamente. Chegando lá, conversa com seu companheiro de trabalho e aguarda mais ou menos uns 10 minutos na máquina, quando então a desliga. Zequinha chama seu companheiro para tomar um café.

Beneto, ainda no lado de fora, saboreando um café fresco que acabara se sair do coador, logo após o terceiro cigarro, vê os dois seguindo na direção dele, observa atentamente. Largou um e tirou o quarto cigarro, acendendo. Comenta, baforando: “Ta bom o café? Parece que ta, né? Vocês dois devem achar que pago vocês pra ficar tomando café, não é? Estão esperando o quê, ai parados, o final do mês pra receber? Já pro trabalho vocês dois, tenho que entregar aquela encomenda até sexta-feira. Vamos lá…”

Saem em disparada para a linha de produção os dois funcionários da fábrica que nunca para, nem para café, muito menos para conversas aleatórias.

Beneto ainda reclamando: “Não sei para que o Plano de Evacuação! Vivem aqui fora tomando café. E quando estão nas máquinas, fazem a melhor função retilínea que eu já vi na história, só cagada, uma atrás da outra!”

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2 respostas para Revolta cipeira (Marcio E. Ochner)

  1. Tiago disse:

    Conseguiste transmitir o soturno clima fa(e)bril jaraguaense.
    Quase me senti de volta à weg…

  2. Marcio Erino Ochner disse:

    kkkk… clima de c(h)ão fábrica…

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