A Bela Adormecida (Vana Comissoli)

Quando as brumas começaram a aparecer e se por, como véu de gaze, diante do sol tornando tudo levemente cinzento e úmido, comecei a bocejar. Talvez o descolorido que retorcia o mundo, ou o mar que se emendava no céu, ou o arrepio da pele… Indecifrável… Indefinível. Um sussurro de medo acompanhava meu sono a alargar-se pelos dias.Ainda nos reuníamos junto ao fogo sagrado ouvindo nossa rainha, aprendendo com o Mago, mas isso foi antes, muito antes do Tudo.
Os barcos perderam o rumo e quase não saíamos mais da ilha, a volta se tornara um ponto de interrogação riscado forte como um raio queimando os troncos retorcidos de antiguidade. Nada havia a fazer além de sortilégios que perdiam o efeito mais rápido do que um piscar de olhos enquanto nossa pele se tornava áspera e poeirenta apesar dos creme de hamamelis e sementes de uvas.
Uma indescritível tristeza tomou conta de meu coraçãoe meus sentidos, deitava-se sobre meus olhos como venda arrancando a conhecida intuição e a certeza do Poder. Pareciame esquecer que era Morgane, a concebida pelo furor do vento e a luz das estrelas.A eterna herdeira do trono da Terra,de ventre farto e braços mornos. Todas éramos Morgane. Todas nos batíamos pelas paredes transparentes que se erguiam aos poucos construídas por mãos feitas de espadas e palavras.Sobretudo palavras. Tão fortes e poderosas que arrebentavam os altares desacrifício, os círculos de pedras e tornavam as orações meras frases esfiapadas de nuvens. Vozes masculinas estuprando nosso mundo feminino. O poder da Deusa caído como as vestes que cobriam nossa nudez pálida. Avalon vendo seu trono ruir carcomido por famintos vermes.
Naquela noite deitei-me com o a infusão ao lado, não havia medo ou dúvida em mim, simplesmente era hora de dormir, não importava por quantos séculos, ou milênios.Um dia, depois que as folhas todas tivessem vicejado e morrido, que rumores inconcebíveis já tivessem se perdido na poeira do Tempo, viria o Príncipe me despertar e seria novamente Morgane, a sempre presente força do gestar e parir sonhos e gente, ideias e transgressões. Levemente cruel como convém a uma mulher e sensual como também é esperado. Sempre bela aos olhos de quem me amasse. Eu e todas as minhas irmãs.
Séculos se passaram em meus pesadelos cheios de sangue e dor, onde os homens se matavam em nome de qualquer estandarte, fosse ele legítimo ou não, quase nenhum era, haviam esquecido os preceitos ancestrais e com isso perdido o rumo. Tornaram-se senhores de uma terra que lentamente devastavam, rolando sobre cadáveres de crianças esfomeadas, animais extintos e sob o reinado do mais cruel dos reis: o másculo Valor Econômico.
Não vi quando o sol começou a furar as brumas silenciosas, nem percebi a aproximação daquele que despertaria a Razão e o Amor novamente em mim. Vinha em um cavalo branco e o trote compassado era o único som que eu conseguia distinguir em meio ao silêncio que se estendia através dos gritos do mundo.
Beijou-me delicadamente depois de lutar contra os grossos liames que me mantinham prisioneira e que se retorceram sobre meu leito com o passar dos séculos. Não rasgou minhas vestes, nem tentou obter meu corpo com a insensatez de dono. Não trouxe rosas e nem doces, apenas as mãos calejadas e vazias de mim. Cicatrizes cobriam seu corpo e o belo rosto. Muitas cicatrizes.Tão velhas quanto o tempo em que a bruma nos fechou em seu círculo sufocante.
Acordei lentamente do longo e exaustivo sono, retirei dos olhos a película que os obscurecera e dei a mão aquele que viera buscar o que fora renegado pelos senhores da cobiça, da inveja e do medo: a dura doçura de uma mulher.
Andamos de mãos dadas trocando confidências, eu consciente de que meus terrores não haviam sido pesadelos, mas a realidade mais crua queimada em fogueiras de bruxas, estigmatizada como reles vaso de sêmen, açoitada por músculos fortes, entregue à ralé como espólio de guerra.
Não havia ódio em mim e nem culpa nele, apenas consequência da insensatez, loucura coletiva que nos tomou a todos. A eles, pela ânsia destruidora do Poder e a nós, pela subserviência e aceitação covarde.
Continuo bela, sempre seremos.Liliths incompreendidas, embora, na realidade,representemos, antes de tudo, a busca da própria afirmação. É verdade que também somos a mulher tentadora, sedutora e que fascina por seus poderes perturbadores. Silenciosas, secretas, cortantes. Aquela a quem os homens temem embora se sentindo fascinados e atraídos. Aquela que jamais será igual, sempre o oposto e assim, só assim, podendo unir-se a ti, Homem, para compormos o Todo.
O acordar chegou como batalha que foi esfriando através da insatisfação que traz a guerra e se transformou, com o beijo do novo Príncipe, numa troca de descobertas e suavidade insuspeitadas ao se darem as mãos e caminharem juntos para o que não deve ser o Amanhã, mas o Hoje constante de ombro a ombro na descoberta da Vida.

Vana Comissoli

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2 respostas para A Bela Adormecida (Vana Comissoli)

  1. Inacio Carreira disse:

    Precisa?
    Vana compôs uma fábula que deveria, por sua beleza e verdade, ser estudada em todos os Conselhos da Mulher, nas Delegacias da Mulher, ser objeto de propaganda no 8 de Março, no Dia das Mães… Em poucas linhas ela discorre sobre a condição da mulher, do mito à vitoriosa que ombreia, com o homem, na luta por um mundo melhor.
    Parabéns, sempre.

  2. Tiago disse:

    Disse tudo Inacio.

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