Roupão (Suzi Daiane)

Que ela tinha um baita par de coxas ela tinha. Eu nunca me preocupei
com isso, afinal peito grande já me excita horrores, mas aquelas coxas… Bem, antes de ficar de pau duro de novo ao lembrar das coxas
de Teresa, deixa eu contar como a conheci.

Era uma manhã de domingo, eu geralmente caminho de chinelo de pano e roupão logo cedo porque gosto de ver a cara de espanto do povo dessa cidade. São uns bestas mesmo. Fazem tipo, uns chegam a atravessar a rua, outros dão risinhos falsos, principalmente as gostosonas que caminham ao lado dos maridos cinquentões cheios da grana. Odeio seus maridos. Adoro as gostosonas.

Mas isso não vem ao caso, porque Teresa não era uma dessas, voltemos ao chinelo de pano e ao roupão. Eu caminhava exatamente vestido assim, e digo exatamente porque eu não usava mais nada. Era só o chinelo de pano e, claro, o roupão. Eu estava indo em direção à padaria, a única da cidade que abre no domingo de manhã. Estava quase lá, mas não entrei.

Teresa me parou na esquina, estava distribuindo uns panfletos de
alguma igreja e, talvez seja por isso mesmo que não reparei nela logo
de imediato. Não! Mentira! Eu não reparei, porque Teresa era gorda e quando digo gorda, quero dizer gorda mesmo.

Teresa tinha tudo farto, tudo mesmo. Olhou-me de cima a baixo, meio que esnobando meu roupão. Desgraçada. E sorriu falsamente. Entregou-me um panfleto, se apresentou e disse: Jesus te ama. Eu me irritei no ato, não por conta de Jesus, mas por conta daqueles olhos esbugalhados de Teresa. Quis esnobá-la também. Peguei o papel, fiz cara de nojo, cuspi e rasguei na frente dela.

Ela ficou puta. Sério! Nunca vi uma beata tão enraivecida como aquela. Aquele monte de carne vermelha começou a tremer, era como um terremoto e um vulcão acontecendo ao mesmo tempo. Ela me deu um tapa. E doeu.

Eu quis revidar, mas a Teresa, bom a Teresa era… uma Teresa putiada e beata e vermelha e gorda. E o seu problema não era um panfleto de igreja rasgado, nem sua infinita banha, seu problema era mesmo com o meu roupão.

Nos conhecemos ali, na esquina, no mesmo lugar que cato as outras, mas não a Teresa. Com ela foi assim eu de roupão e ela vulcão. Eu a
convidei pra um café. Ela negou, de cara, coisa de beata mesmo, mas aí eu fiz menção de abrir o roupão, disse que se ela não aceitasse eu…

E Teresa ficou mais vulcão. Aceitou. Finalmente a padaria.
Teresa não quis comer nada. Grandes coisa, ela ainda era gorda. Eu
comprei um francês e um cappuccino. Sentamos numa mesa bem no canto. A atendente riu quando nos viu chegando. Ela sabe da minha fama, mas a Teresa já era demais.

Não conversamos. Eu comi devagar e fiquei olhando pra ela. Ela me
olhava também. Era tanto silêncio que eu preenchi olhando as coxas
dela que a saia não conseguia tampar. Teresa tinha de por as pernas
pro lado, debaixo da mesa não dava. Que gorda.

Teresa fingia que não via que eu a via, mas não ficava vulcão. Vez ou
outra tapava as coxas com os panfletos da igreja e olhava meu roupão. Olhava tanto que era como se me olhasse por dentro. Olhava meus pelos escapando por cima e olhava querendo ver os pelos que estavam embaixo.

Agora Teresa amassava os panfletos nas coxas e me olhava. Teresa
olhava meu roupão, era como se ela fosse arrancá-lo e me morder
todinho.

Eu não aguentava mais olhar pra Teresa, aquela gigante, aquelas coxas. Meu pau ficando duro. Paguei a conta.

Saímos juntos, ela caminhava ao meu lado e eu não disse nada, fui em
direção ao meu apartamento, ela me acompanhando. Ainda o silêncio.
Eu caminhava olhando pra baixo, pra debaixo da saia de Teresa. Que
coxas, ai meu Jesus que coxas tinha a Teresa.

E numa outra esquina qualquer Teresa parou, estávamos quase lá. Então ela arrancou meu roupão, assim de súbito, e o rasgou. Cuspiu. Eu fiquei parado, não sabendo o que fazer, meu pinto duro comungando o silêncio. Ela fez cara de nojo, e se foi a Teresa, levando suas coxas, o seu Jesus que me ama e o meu roupão.

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Suzi Daiane

www.tonalidadesuzi.blogspot.com
http://twitter.com/tonalidadesuzi
msn: suzidaiane@hotmail.com

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2 respostas para Roupão (Suzi Daiane)

  1. Vana disse:

    Simplesmente fascinante! Que incrível e maravilhosa visão criativa de uma situação insuspeitada. Parabéns!

  2. Fabuloso.
    Seja bem vinda novamente Suzi.

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