Chapéu Vermelho (Vana Comissoli)

Mania, gosto, estética, esquisitice, arcaica escolha, podem chamar do que quiserem, mas eu amo chapéus! Principalmente os vermelhos. Minhas primeiras lembranças são de tocas e capuzes vermelhos, a explicação que encontrei é que minha mãe e eu somos do signo de Áries e, portanto, vermelho é nossa cor.
A medida que cresci sofistiquei minha sensibilidade e passei às boinas à francesa e chapéus. Fui motivo de gozação na escola, mas na faculdade já começaram a achar um charme e se tornou parte de minha identidade. Não era para esconder cabelos feios, sempre os tive sedosos e brilhantes, castanho claro onde o sol coloca pinceladas douradas nas pontas suavemente encaracoladas.
A primeira notícia que se tem de um chapéu numa cabeça feminina data aproximadamente dois mil anos antes de Cristo. Com o passar dos séculos foi deixando de ser usado como proteção do sol para se transformar em acessório embelezador e, não raramente, indispensável.
Os chapéus sempre foram muito utilizados pela realeza que tinha na rainha francesa Maria Antonieta (a mais “fashion” das rainhas) uma grande fã e, atualmente, todas as suas variações, são a paixão da futura princesa da Inglaterra, Kate Middleton, embora a preferência seja a casquete que é um charme e não precisa ser tirado à mesa. Se não princesa, alguma coisa que o valha para o povo britânico que se ufaniza com sua nobreza.
Pois é, eu sei tudo sobre chapéus, cada um com seu fetiche, embora digam que apenas os homens os têm. Se fetiche é masculino sou homem, embora tudo em mim o negue. As bobagens que inventam! Freud tinha razão, um charuto, à vezes, é apenas um charuto.
Minha avó sentava-se empertigada na poltrona mais adequada a um soltar de corpo, era o jeito dela, ou talvez temesse amassar o indefectível chapéu. Fazia algum tempo que não falava coisa com coisa, os médicos ainda investigavam a possibilidade de Alzheimer. Aos 95 anos que diferença faria se fosse isso ou aquilo? Minha mãe passou por nós e falou baixinho balançando a cabeça resignada: Caduquice… Caduquice… Daqui a pouco serei eu. Tropeçou no tapete em seguida, saiu mancando. É a velhice é resignação que dá topada no dedão de todo mundo que se aproxima dela.
Vovó Nívea mexia os lábios sem que eu conseguisse entender uma palavra do que dizia, ajeitava os cabelos sob o chapéu de abas caídas que um dia fora útil em praias ensolaradas.
Ora, uma menina moça deve usar chapéus, mostra sua linhagem, sua posição na sociedade. E são tão sedutores, imagina um romance sob um chapéu, um beijo roubado, o rubor escondido pela sombra provocada no rosto.
Entendi uns fiapos da frase solta e compus uma compreensão interna. Vovó teria voltado no tempo? Não sei se era triste acompanhar o que considerávamos declínio, ou se era uma alegria saber que ela não sintonizava na falência, na escuridão que lentamente a envolvia. Prefiro crer que assim fosse melhor: eternamente a jovem que fazia footing na calçada de paralelepípedos lisos e desenhados da rua mais conhecida da cidade: a rua da Praia que teve praia em perdido tempo quando ainda não tinham aprisionado o Guaíba e suas águas beijavam quase o centro da cidade.
Quando eu crescer, conhecerei um belo homem de chapéu, daqueles que tem a peninha colorida na copa. Ah… que romântico…
Fiquei imaginando o Nando de calça jeans, jaqueta de motoqueiro de chapéu de feltro muito composto na cabeça. E se ficasse bem? E se a calça tivesse friso? E se a camisa fosse de colarinho e não a camiseta casual chic? E se ele tivesse carro em vez de moto e abrisse a porta para mim? E se me mandasse flores? E se fizesse poemas de amor?
Cinturinha de vespa, que orgulho tenho da minha, feita no elástico da cinturita. Ter 18 anos é uma delícia e logo casaremos. Serei moderna, casarei de chapéu e sem véu. Um casamento de verão, minha ousadia convencerá que seja no jardim do clube e todas minhas amigas estarão com suas lindas luvas brancas, saias esvoaçantes sobre a armação e belos chapeuzinhos com renda para encobrir o flerte. Logo casarei…
Vovó falava alto e claro agora e parecia não me ver, fiz movimentos com os braços para chamar sua atenção e, só depois de algumas tentativas, percebi que ela se limitava a imitá-los como se estivesse frente a um espelho. Sorria quando eu sorria e quase encostou o nariz no meu para dizer sussurrando que estava muito magrinha, amanhã começaria a comer mingau, precisava de umas carnes. Pensei no trabalhão e esforço que eu fazia para não comer chocolate, malhar três vezes por semana, pizza só uma vez por mês, tudo para impedir que o ponteiro da balança desse um pulo de susto quando me pesasse.
Dois filhos, um casal. Certamente é o que toda mulher sonha. Maurício e Marília. Combina perfeitamente. Serão lindos e rosados, depois, eu ensinarei Marília a amar chapéus, a se cuidar como toda moça deve fazer, ser composta e não oferecida que é coisa de menina sem família.
Minha mãe chamava-se Marília, mas casara grávida de meu irmão enquanto vovó fingia que achava tudo normal e sorria um esboço forçado, era o que se via claramente nas fotografias. Há quarenta anos, quando meu irmão nasceu, não era ainda tão normal e a festa não foi num jardim como vovó dissera que seria. Tão lindo e romântico quanto o dela. A filha merecia a mesma deslumbrante felicidade, mas nem tudo que se sonha se torna realidade, muitos sonhos são divagações da alma que a carne não consegue realizar. Muitos sonhos, são deliciosas visões cor-de-rosa que se guarda junto com pétalas secas dentro de diários que não se lerá mais.
Era um belo sonho e eu… Achei que também poderia sonhá-lo.
Mais alguns meses e vovó não se reconhecia mais em seu velho e desgastado corpo, se reconhecia no meu, ainda no auge de meus 30 anos. Trinta anos… Tinham me dito e eu não acreditar, são os melhores anos da mulher, sempre achei que a fresca vida dos vinte fosse o melhor tempo, mas havia em mim uma riqueza e ao mesmo tempo um fogo, que nascera na fronteira dos trinta, não posso negar.
Vovó me tratava como se eu fosse ela e ela, ela não existia mais. Para agradá-la, enfeitar seu tempo do adeus, comecei a usar chapéus. Aos poucos, com certo medo, timidamente, mas também aos poucos fui me vendo especial de chapéu e passaram a fazer parte de mim.
Enterramos vovó Nívea de chapéu vermelho, o seu preferido, eu encontrara um muito parecido e fiz questão de usá-lo neste dia: uma homenagem, uma consideração amorosa. Ao sair do cemitério que me roubara vovó havia um homem parado na calçada e me olhou com os mais penetrantes olhos que eu já vira. Parecia me esperar, me conhecer. Não era bonito, tinha nariz grande, aqueles olhos, uma boca larga com caninos pontudos que apareceram quando sorriu para mim. Usava cabelo mais comprido do que o normal, parecia esconder as orelhas, mas nas mãos e logo depois na cabeça, tinha um lindo e sedutor chapéu de caça.

Vana Comissoli

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2 respostas para Chapéu Vermelho (Vana Comissoli)

  1. Delícia de narrativa, daquelas que dá pra ler sem pressa, e o final, surpreendente, como deve ser um conto. boa Chapeuzinho!

  2. Tiago disse:

    Parabéns pelo texto Vana. Pelo visto a carochinha segue a lhe inspirar. Que bom!

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