A queda (Fernando Bastos)

Chegaram ao Pronto Socorro antes da aurora. Ela, de camisola branca de algodão, com manchas roxas nos braços e coxas, e fortes dores nas costelas. Ele a esperou no pátio, fumando nervosamente alguns cigarros. Ela explicou ao médico de plantão que caíra no banheiro. Praguejou contra a labirintite.

Voltaram para casa e fizeram amor. Com cautela, por causa dos ferimentos.

No meio da semana, lá estava ela, na recepção do hospital. Dessa vez, um galo na cabeça. Na queda, batera no vaso sanitário. O noivo, lá fora, aguardava a amada, devorando um cigarro atrás do outro.

No mês seguinte, foram mais quatro idas ao hospital. Hematomas na bacia, pulso fora do lugar, seios doloridos, um olho roxo, resultado da batida contra o box do banheiro. O remédio contra labirintite parecia não resolver o problema da tontura. As últimas gotas de paciência do noivo precipitavam como coquetel molotov sobre a equipe de enfermagem. Foi preciso chamar um segurança para conter a fera. Responsabilizava o médico e dizia que procuraria outro hospital. Queria a saúde da amada de volta.

À noite, fizeram amor como se tivessem se conhecido há meia hora. Juras de amor eterno a fez se sentir a mais desejada das mulheres. No domingo foram à missa, caminharam no parque, lançaram migalhas de pão a um bando de pombos na pracinha. Ao observarem as crianças nos balanços e no escorregador, sonharam com um filho, que teria o nome do pai, e a beleza da mãe. Ela não precisaria mais trabalhar fora, pois ele não achava decoroso para uma mulher passar a madrugada atrás de um balcão. Ela sorriu, maneou a cabeça e disse que gostava daquele trabalho.

No fim do dia a ambulância chegou. Outra queda. Mas dessa vez não resistiu. Dos olhos da mãe, lágrimas rolavam com gosto de ausência. A enfermeira lamentou que os remédios para a labirintite não a ajudaram, e ficou sem chão ao saber pela mãe da jovem, que ela nunca sofrera de tal doença.

 

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2 respostas para A queda (Fernando Bastos)

  1. Tiago disse:

    Intrigante relato Fernando.
    Triste que nesse caso é uma espécie de “a arte imita a vida”…
    Lei Maria da Penha nele!

    • A queda é ficção, mas inspirado em mta coisa que ja li nas notícias de jornais. não raro, a mulher tenta acobertar os maus tratos q sofre do companheiro, e qdo tenta denunciar, é tarde demais.

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