As palavras que (não) devem ser ditas ou escritas?! (Adriana Niétzkar)

Os meninos vasculham os livros da sala de leitura, os folheiam e deparam-se com um do Tezza, pois encontraram ,o único, palavrão no livro: “Deus é um filho da puta!”. A frase impressa os perturba, correm ao meu auxilio para ouvir uma reprovação, digo para lerem o livro e eles se afastam incompreendidos. Pois são recriminados ao dizer, mas não ouvem recriminação à escrita. Tento explicar o que o cinema brasileiro não conseguiu. A ficção imita a vida e a vida tem palavrões, ainda que os tradutores substituam todos os “!fuck you” por “filho da mãe”.
Algumas coisas nunca mudam, como na primeira semana da aula de inglês. Ano após ano, eles sempre procuram o embaraço do professor ao pedir a tradução: “O que quer dizer fuck you?” Querem tirar o palavrão de minha boca e eu os inquiro;“então já perceberam que cinema estadunidense também tem muito palavrão?! “Eles não resistem a oportunidade e o teste – “é vai se foder né professora?” – pois é umas das poucas vezes que “podem” dizê-los em sala. No entanto, a escola é um laboratório deles, usa-se toda hora.
Fazer intensivo de palavrão? procure um grupo de adolescentes, eles são quase uma linguagem própria, e esqueça os “filho da puta”, “vai te foder.”.. isso é ultrapassado, de outra geração, eles são muito mais elaborados e “criativos”que misturam vários gêneros em uma única frase incompreensível, mas “dolorida”, pelo acúmulo de “besteirois”.
Aliás, “vai tomar no cu” era o que minha amiga do segundo grau (agora ensino médio – outra época) falava, cada vez que precisava de uma interjeição. Os meninos adoravam dar tapas nas suas costas só para ouvi-la. As meninas cobravam; “olha o palavrão”. Mas o vai tomar no cu fazia parte da linguagem dela, ninguém conseguia explicar de onde, o irmano não falava os pais eram educados. A verdade é que pra ela era palavra como outra qualquer. Eu que nunca os dizia interessava-me pela sua naturalidade. E, depois, mais próximas nunca a vi xingar ninguém, mas falava “vai tomar no cu” pra tudo.
E quem as vezes não tem vontade de dizer? E quantos não usam de habilidades elaborando frases polidas que agridem e ferem, humilhando até a alma?
Criatividade eu admirava em um colega da sétima série, que decorava nomes científicos para xingar os que o perturbavam: “seu sistosoma mansone!”Funcionavam pela sua sonoridade e incompreensão, mas não feriam.
Tem outras palavras consideradas “incompreensivelmente” como palavrões; preto, viado, retardado, animal… Aliás, nunca entendi como essas palavras podem funcionar com xingamento. Meu avó era polaco, alguns mais velhos, sempre me corrigem a frase; “polonês!” – porquê o seu sinonimo é ofensa?!
Trocar besta por desprovido de intelectualidade também não modifica o que penso e parece que quanto mais “enfeitamos as palavras” mais elas “vestem” nossos preconceitos, mas não os retraem. É como a famosa frase: “ eu trato ele com gente igual a mim”. Por essas e outras que eu gostava das interjeições “diferentes” daquela minha amiga.
E na escola, há também os corajosos, que desafiam a “merda” da redação escrevendo alguns palavrões, sugiro os textos marginais e não entendo porque os palavrões não retornam nas redações seguintes.
De qualquer modo, “uma frase a lá Nelson Rodrigues” ainda gera fascínio ou repulsa, dependendo do que o freguês procura em suas leituras. E fazem estilo de transgressores para os leitores mais rebeldes que os amam por seus retratos e linguagens marginais. Ainda que muitos destes textos nada tenham de discussões novas a arte tem tido forte tendência marginal, porque retrata essa geração desestimulada que quer mandar tudo à PQP e manda! Mas continua se fodendo, gozando ou não.

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4 respostas para As palavras que (não) devem ser ditas ou escritas?! (Adriana Niétzkar)

  1. Inacio Carreira disse:

    Porra…

  2. Tiago disse:

    Ótima crônica Adriana. Daquelas que a gente não consegue parar de ler antes de chegar ao final.
    😉

  3. Anônimo disse:

    Excelente! Adriana, belo texto. Parabéns e abraço do Marcelo

  4. Marcelo Lamas disse:

    Excelente. Parabéns e abraço do Marcelo

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