O Quarto – Parte 1 (Kênia Cris)

Seis e meia da manhã – anunciava uma longa cadeia de galos –  e os primeiros raios de um sol pálido e fraco começavam a surgir, mas o despertador não tocou para acordar Tomas para o trabalho como de costume. Os olhos fixos em algum lugar no teto não mostravam qualquer vestígio de pressa ou preocupação. Tomas não sairia da cama – não naquela manhã. O que diriam o chefe e os colegas de trabalho quando ele não aparecesse? Alguém ligaria para saber o motivo da falta? Certamente presumiriam que estivesse indisposto ou doente, aguardariam seu retorno e atestado médico sem muitas expectativas. Pelo menos não enfrentaria o trânsito preguiçoso ou os tipos estranhos que costumavam sentar-se ao lado dele no ônibus, nada de “bons dias” involuntários e sorrisos amarelos, nada de papéis, ou cálculos, ou prazos, ou telefonemas, ou piadas sem graça das quais precisasse rir.

As janelas fechadas o impediam de ver o movimento matinal do universo, no entanto, podia apostar que havia nuvens no céu. Apesar da moça da previsão do tempo ter dito o contrário na noite anterior, os cheiros trazidos pelo vento não deixavam dúvidas: a chuva não tardaria a limpar gente e coisas, encher barragens e regar plantações de prosperidade, inundar casas de pouca fortuna e fé. A julgar pelo silêncio absoluto o gato não estava em casa. Na certa fazia sua caminhada rotineira pelos telhados da vizinhança. Por que diabo não comprara um cachorro?

Nascido prematuro num parto deveras complicado, Tomas lutara muito para vir ao mundo e trinta e seis anos mais tarde sua vida se resumia em acordar às seis e meia todas as manhãs por um trabalho que ele detestava com todas as forças, alimentar o gato, pagar as contas, dar telefonemas, apertar mãos e se viver era só isso, então ele precisava fazer algo a respeito.  Já estava decidido: não sairia da cama até provar-se peça de um quebra-cabeça divino, até sentir-se verdadeiramente necessário. Precisava com urgência de um pensamento feliz que o levasse a crer no ser humano, crer que havia uma chance de mudança, que havia sentido em abrir os olhos e levantar-se pela manhã, que existia esperança. Vivera até aquela manhã como um pássaro manso numa gaiola apertada, mas agora tinha um plano de fuga.

Há meses planejara esse momento e mal podia se conter tão satisfeito estava por ter resistido ao nervosismo e seus efeitos colaterais para iniciar seu novo projeto. Quanto tempo suportaria sem água ou comida, retardando ao máximo suas necessidades biológicas? Teria vontades? Desobedeceria as ordens dadas ao corpo quando fosse tomado pela agonia seca?

Deveria ter atendido a ligação da moça da casa funerária – ao menos teria serviços fúnebres de excelente qualidade, caso precisasse. A idéia de ter pagado um seguro de vida durante oito anos agora lhe parecida estúpida. Quem ficaria com todo aquele dinheiro? A irmã? Imaginava como estariam as coisas em… Como era mesmo o nome? Na fazia muita diferença, ela não compareceria nem mesmo à leitura do testamento, se houvesse um.

Poderia ter um final digno de grandes reis medievais se pelo menos pudesse chegar à cozinha, ligar o gás, acender um último cigarro e esperar – o plano perfeito já que não tinha um mordomo para culpar. Talvez conseguisse se safar do inferno. “Uma fatalidade”, concluiriam os bombeiros. “Ainda ontem estive com ele”, “Parecia tão sereno”, diriam alguns vizinhos.

Ouvira desde a infância que o avo morrera dormindo, mas naquele momento tinhas grandes dúvidas disso. Só pelo fato de terem-no encontrado na cama não significava que dormia quando o barqueiro o avistou. Não reagiu ao beijo de bom dia dado pela esposa todas as manhãs por cinqüenta e seis anos, não se levantou aos som dos pássaros. Mas isso não quer dizer que dormia quando a alma deixou para trás o velho corpo cansado. Talvez tivesse sido acordado no meio da madrugada por um sonho ruim, talvez tivesse passado a noite em claro num acesso de insônia, revivendo as poucas lembranças que a cabeça ainda lhe permitia guardar, olhando ali ao seu lado a mulher que amava mais do que qualquer outra coisa na vida e imaginando em que sorte de sonhos sua mente estaria mergulhada. Provavelmente não sabia que não chegaria a ver a manhã seguinte.

Tomas odiava velórios e toda a ladainha sobre o último adeus. Se pudesse de alguma forma voltar logo após a morte, tentaria desaparecer com o próprio corpo para evitar de tirar os poucos amigos de suas atividades diárias e incomodá-los com o dever de comparecer ao seu velório. Com tanto barulho, poluição violência e engarrafamentos nas grandes cidades, alguns poderiam dizer que a morte de um amigo ou parente representava uma pausa valiosa para qualquer cidadão urbano, uma oportunidade de refletir sobre suas ações e reações diante dos obstáculos preparados pela vida. Afinal, havia aqueles que aproveitavam a morte de entes queridos para iniciar uma verdadeira (ou falsa) reflexão sobre a vida e a morte – filósofos de fim de semana. Podia-se ouvi-los dizendo “é rapaz, pra morrer basta estar vivo”, “o que é homem, veja bem. Nós não valemos nada”. Pensando em seu círculo de relacionamentos, haveria alguém lá para despejar tais bobagens nos ouvidos dos outros, se houvesse mesmo um corpo a ser velado. Mas o que aconteceria se o corpo nunca fosse encontrado? Quem desconfiaria de sua morte? Quem o procuraria em casa?

O carteiro sempre tinha algo para ele, perceberia o estranho acúmulo de cartas na caixa de correio, seria o primeiro a notar sua ausência. Ora, mas que bobagem, o serviço postal já tinha trabalho suficiente para se ocupar da vigilância e monitoramento dos destinatários das cartas. Mudou-se, desconhecido, recusado, falecido, ausente entre outras opções davam o recado. Reclamava incisivamente da falta de privacidade da vida em edifícios mas agora pensava se não deveria mesmo ter ficado com aquele apartamento com vizinhos que olham pela janela, vizinhos que pedem coisas emprestadas o tempo todo, um porteiro simpático e curioso que controla a correspondência e a vida de todo o edifício, um sindico chato e disciplinador que insiste para que ‘os senhores moradores não subam com os cachorros pelo elevador social’ – as maravilhas da vida em condomínios perdidas para sempre.

Por que escolhera um gato? Rex, o melhor amigo do homem, faria barulho e chamaria a atenção de alguém, mas Bichano, o gato inútil… Onde estaria até agora?

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Uma resposta para O Quarto – Parte 1 (Kênia Cris)

  1. Tiago disse:

    Ótima estréia Kênia!
    Seja muito bem vinda!

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