Água de chuva (Inacio Carreira)

Realidade é alguma coisa na qual, quando
você deixa de acreditar, não vai embora.
Philip K. Dick

Vontade de tomar água de chuva. Água destilada, dizia meu pai, boa para colocar na bateria do carro. Faz tempo, sim. Que, hoje, as baterias – ao menos a maioria delas – vêm blindadas, o vivente não pode colocar nem tirar nada, nada… Porque água de chuva? E se essa chuva for a decantada “chuva ácida” do filme Blade Runner – O caçador de andróides? Filmado em 1982, virou cult ao retratar Los Angeles do ano 2019 (pertinho de nós, agora). Aliás, novembro de 2019. Eu nasci em novembro… Será uma premonição? Serei andróide? Não, sou muito estúpido, andróides são – seriam – programados para a excelência.

Voltando à chuva ácida, que parece ficção científica, vou à rede e leio que é um dos problemas ambientais mais sérios da contemporaneidade, causada pelos gases tóxicos liberados na queima de combustíveis fósseis, carvão ou petróleo. Após a sujeira da combustão ganhar a atmosfera, parte dela reage com o vapor d’água e outros componentes em suspensão, quando os gases poluentes transformam-se em ácidos, caindo por ocasião de tempestades, neblinas e nevoeiros. Embora expressa na ficção filmada em 1982, o livro que deu origem ao roteiro, de autoria de Philip K. Dick, foi lançado em 1968 com o título Do Androids Dream of Electric Sheep? Entretanto, o problema é pesquisado na Europa desde o século 17, ganhando fama na década de 60 (do século 20), com o declínio do número de peixes em lagos daquele continente: tem – a chuva ácida – o poder de destruir florestas, acabar com os nutrientes do solo, matar a vida aquática e, lógico, prejudicar a saúde humana.

Será essa vontade, de tomar água de chuva, uma necessidade de ligar-me aos elementos da natureza, numa inconsciência holística, numa comunhão telúrica, numa vontade de esvair-me com a água, de descer aos infernos (as regiões subterrâneas) e renascer, fênix pós-moderna, replicante inconformado com a mesmice amém?

Preciso tomar água, muita água. Os rins não funcionam direito, pedreira, causa ou efeito da abstenção aquosa, ou líquida no geral… Se fosse água da chuva o líquido ingerido, faria tão bem quanto às baterias de minha infância? Mas, se essa chuva for ácida, ficarei mais empedrado, contaminado, modificado, células multiplicando-se desordenadamente, organismos buscando romper a barreira da pele, ossos esfarelando-se, olhos cegos, tapete de pelos e cabelos forrando a habitação?

A água, então, pode ser droga, também. Alterar as funções do organismo. Em vez de ajudar, contaminar. O que, aliás, não precisa ser esperado de todo esse processo poluição / ascensão da mesma / descida em forma de chuva: reza a lenda que não existe nem uma gota d’água livre de contaminação após as bombas atômicas que arrasaram Hiroshima e sua irmã no horror… Nem o famoso Aquífero Guarani, subterrâneo, escapa a esta sina. Hodierna e hedionda.

Já não tenho vesícula biliar; meus dentes foram substituídos paulatinamente, ao longo da vida; por conta de duas hérnias inguinais ganhei uma tela de metal na região subcutânea abdominal; meus olhos são protegidos por lentes, por hora em armações, mais um pouco e colocadas diretamente no globo ocular; meus ouvidos apitam diuturnamente, em breve requerendo intervenção cirúrgica; minhas pernas cambaleiam, exigindo pesquisa de labirintite, meus… deixa pra lá.

Melhor colocar um chip, ou mais, e transformar minha ficção em realidade, andróide também, ou semi-andróide, a trabalhar mais um pouco, a aproveitar o que foi armazenado no cérebro (que teima também, o safado, em negar informações). Eu, new-andróide, ao contrário da história contada em Eu, Robô, parto do humano para o quase humano, na esperança de vivenciar o ano 2019, se as profecias catastróficas não se concretizarem…

……..

Pesadelo. Acordou sem saber mais quem era, se o Eu da voz narrativa ou se alguma outra voz, daqui ou de lá, nascido de mulher ou criado em laboratório. Admirável mundo novo…

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5 respostas para Água de chuva (Inacio Carreira)

  1. Anônimo disse:

    Adquiri o livro Nós (e os nós entre Nós) o livro de contos dessa galera de ótimos escritores que Jaraguá do Sul tem o privilégio de abrigar…no lugar mais inusitado….na mecânica onde levei meu carro para uma breve revisão….sim comprei o livro numa mecânica e das mãos do Gil Salomon… que acidentalmente encontrei por lá….rsrsrs
    Abc… Dessa admiradora do seu trabalho.

    • Olá carissíma anônima. De fato Jaraguá do Sul tem uma “fauna” escritora fabulosa. Oxalá continue a revelar tantos talentos futuramente.
      Agora, mudando de assunto, poderias, voltando a essa página, nos deixar também seu nome? Creio que esqueceste de citá-lo.
      Abraço.

  2. Muito bom, a partir de determinada idade somos como bateria de celular: enquanto cheia funciona tudo muito bem, mas descarrega mais rapidamente e requer mais tempo de recuperação 🙂
    Água de Chuva: toda água já foi chuva e de nova a será.

  3. Inácio. Que texto legal você criou mestre. Soubeste muito bem dosar a realidade e a ficção nessa ótima crônica. Lendo-a relembrei de muitos dos clássicos do sci-fi que tanto curto.
    Obrigado pela viagem.

  4. Vana disse:

    Nacho, um de teus melhores! Um pouco mais e teria que beber a água vertida dos olhos.

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