Rapunzel (Vana Comissoli)

O sol enganava vida quarto adentro, o que aumentava minha indignação. Era muita falta de pudor me afrontar com toda a sua luz branca, borbulhante, desenhando raios diagonais pelas teimosas janelas que permitiam sua entrada.

Ela me olhava maravilhosa, quase bonita demais para meu momento. Era ela e eu. Sua falta de olhos, igual membro amputado, fazia com que eu sentisse seu olhar como uma dor aguda e congelante. Já tinha escrito pelas paredes a minha fúria, em vermelho batom e preto lápis de sobrancelha. Estavam cobertas do teto ao chão repetindo o que se repetia incansavelmente dentro de minha cabeça: Por quê? Por que eu? Roubara os versos desesperados do poeta e os desenhara borrados de sombras para pálpebras verdes, azuis e lilás:
“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?”
Nada de respostas. Silêncio total. Um silêncio que não existia em mim. Os avisos, conselhos, compaixão tinham se multiplicado em e-mails e telefonemas que eu não queria ouvir ou sequer saber que existiam. Ninguém precisa ter calma nessa hora, eu queria gritar enquanto fazia tudo que precisava fazer. Tomei todas as providências, fiz todos os exames, consultas e cirurgias diagnosticadas, ainda assim essa hora não se afastara de mim. Eu sabia que chegaria inexorável, mas ainda assim desejara, pedira, fora aos santos, para que ela morresse de inanição, penúria, gastura, como diria minha avó. Não morreu. A morte é uma mesquinha criatura, nunca pensa no outro, faz só o que lhe dá vontade e assim vai matando quem não quer morrer e deixa vivo quem deveria ir dessa para melhor.
O que me falavam de pensamento positivo, força, otimismo, me soava como cobrança. Não me cobrem postura, o câncer é meu! Eu não tinha essa magnânima postura de encarar “as coisas da vida” com naturalidade. Achava que as terapias não funcionavam e otimismo era um sentimento que estava a mil quilômetros de sanidade distante, não passava de uma palavra vazia.
Tudo isso para eu chegar ali. Com a desculpa de enjoo e cansaço, mal saía do quarto, minha torre de cristal. Todo mundo sabia o que eu vivia lá dentro, pelo menos me parecia que sim, como poderiam crer que pudesse ser diferente? Era o meu momento, me deixem em paz, mas não dizia nada, apenas me deixava embalar pelo meu medo e desespero.
O movimento dos raios solares afinal caiu sobre ela pondo belos reflexos acobreados com os quais eu sempre sonhara e que achava tão deliciosamente fatal. Já que não os tinha naturais os construí nela.
A quimioterapia é isso aí:talvez e só talvez matasse a bola de células doidas que tentava me matar, mas antes me deixaria acabada de náuseas, vômitos e diarreias que tornam qualquer um amesquinhado. E pior, martírio imposto: me deixaria sem cabelos!
“O cabelo é o de menos, pense na vida”. Não é bem assim, não é tua cabeça a prêmio, rangia por dentro meu pensamento entontecido. Pelo menos não é o que apregoam quando se está no terceiro round.
Logo que o câncer foi descoberto se pensa só nele, depois se fica tão soterrado de exames, pareceres, frases “levanta astral”, diagnósticos e prognósticos que não se pensa nos cabelos. A cirurgia, o cheiro de hospital e de flores que enchem o quarto mais do que o suportável quando seria insuportável não recebê-las absorve qualquer possibilidade de raciocínio, muito menos de sentimento sobre qualquer coisa. Até que chega a terceira fase: a químio e a rádio. Duas senhoras que se assemelham à freiras visitadoras, trazem braçadas de esperança, mas são assexuadas, sem brilho e levemente indiferentes. Nas mãos o rosário de observações e consequências e da milagrosa fé que vacila corações e roda a tômbola da sorte.
Eu tenho 37 anos, adoro ser mulher. O feminino me habita com uma naturalidade felina que me enche de prazer. Nunca, em nem um momento, desejei ser outra coisa que não mulher. Adoro a fantasia dos vestidos, da maquiagem, dos sorrisos que derrubam homens e me apaixonar loucamente em versos de amor é minha especialidade favorita. Jamais me passaria pela cabeça cortar os cabelos,mulher é mais mulher com fios longos, macios e brilhantes e, de repente, não tão de repente, eu tinha que enfrentar ela, esta coisa: a peruca que se exibia à minha frente e deixava-se fotografar pelo descuidado sol.
Sempre se tem opção. É muito ridículo saber disso diante de uma peruca que o travesseiro, desenhado de fios a cada acordar, me confessava necessária. Ou ela ou a calvície. Alguém pode realmente se imaginar, se desejar careca? Uma mulher tem tal força?
Sinceramente não acredito que nem os pobres homens que receberam este diabólico brinde genético gostem. Imagine eu. Aceitando-a, viriam os lencinhos pastoris e floridos, estampa que só piorava a situação, ou echarpes de seda a cair pelas costas, boinas e bonés masculinizados.
Eu podia enxergar meu cabeção careca. Passei até a entender e aceitar a tentativa frustrada dos homens que atravessam longos fios de um lado para outro da cabeça numa via férrea horrível que já abortara possíveis amoresem meus braços.
Parei na frente do espelho. Talvez os cílios e sobrancelhas também sumam, dei-me conta arrepiada. Meus lindos pelos! Não sabia que os amava tanto e que eram tão representativos de minha identidade. Pensei até nos pentelhos. Nunca ninguém me disse se eles caíam ou ficavam lá, irônicos, rindo debochados para a nudez de todo o resto.
Parece drama pensar nos cabelos, riscar as paredes, ter auto piedade diante deste monstro paquidérmico que é o câncer, mas é o que acontece. Podem vir os psiquiatras falando em desvio do conflito central que é o pavor da morte, isso não diminui em nada o tal pavor. É doloroso, é perder uma parte de si mesmo sem que haja cola, conforto, amizade que segure.É como se em meio a um temporal, numa busca de abrigo, ainda caísse um galho de árvore em sua cabeça.
Dizem que a gente dá outra dimensão à vida depois de um câncer, ou durante. Eu não sei, não cheguei neste quarto round. Sei que lidarei melhor com o câncer de outra pessoa, não a encherei de estímulos vazios de sentido para quem não teve a praga.Talvez me sente quieta ao seu lado, deixando que o silêncio seja uma partilha maior e permita que revele sua horrível dor de perder os cabelos, de ter deixado em uma mesa de cirurgia alguns pedaços queridos de seu corpo.
Não sei se serei mais generosa, ou, se eu o vencer, voltarei alegremente a ser eu mesma com todos os meus defeitos.De há muito conheço a memória humana, tão aguda no momento, tão distraída depois que a dor dá as costas. Não pretendo esperar muito de mim, seria uma afronta me obrigar a ser outra pessoa por que enfrentei covardemente ou estoicamente a doença. Me aponta um que tenha sido heroico de verdade diante dela, que não tenha sorrido apenas para que deixassem de atirar pérolas de consolo sobre ele. Sei que tem gente contando maravilhas de sua fase pós câncer, tenho dúvidas se o milagre ocorreu, ou se é apenas uma expressão de profundo alívio.
Pretendo ser a mesma vaidosa que sempre fui e com muito mais cuidados porque amarei ainda mais meus cabelos, meu corpo são e livre. Me maquiarei com mais esmero para que eu veja como é bom ter rosto para maquiar, cabelos para receber os melhores shampoose cremes. Talvez gaste partes de meu salário com esses cosméticos divinos e cheirosos.
As paredes cheias de minha letra nervosa voltam a me perguntar: E agora?
Sou irredutível: Não quero esta linda maldita peruca, disfarce de fantasma, não quero os lencinhos que sempre ridicularizei, as boinas que amo e ficarãoburlescasseguras apenas pelas orelhas. Vou indignar a calvície, eu a aceitarei.
Tenho câncer sim, mas não morri e nem sei se morrerei. Coisa mais boba, claro que sei, todos morrem, a calvície também morrerá. Espero que antes de mim.

Vana Comissoli

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2 respostas para Rapunzel (Vana Comissoli)

  1. Que belo texto teceste cara Vana. Abordaste um assunto tão trágico com sua sensibilidade peculiar e o resultado nos dá o que pensar.
    Espero ansioso que de fato continue com esse projeto de contos de fada. Aí tem pano pra manga!
    Abraços.

  2. Inacio Carreira disse:

    Caríssima,
    depois do depoimento do Tiago, com quem concordo em letras e espaços, só posso dizer “obrigado por existir”. E por ser minha mestra e amiga.
    Grande abraço.

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