Lupanar (Marcelo Lamas)

Na época do cursinho pré-vestibular fui com um amigo numa festa. Dentro da balada, perto do bar, havia um grupo de mulheres. De belas mulheres. Uma delas era sósia de uma atriz que era a bola da vez da Globo, hoje seria uma Isis Valverde. Eu fiquei observando e fiz uma aproximação. Fiquei um tempo ali perto, ouvi algumas coisas que elas falavam em alto tom. Aparentemente estavam ali só para curtir a festa. Puxei conversa, falei pra sósia que ela era a mais bonita ali presente. Ela agradeceu e retribuiu com um beijo no meu rosto. O meu amigo ficou espantado. Queria saber o que eu tinha dito e, quem sabe, repetir aquele golpe certeiro com outrem. Eu não respondi. Idiotice de adolescente. Mas, falei pra ele que, pelas evidências, aquelas meninas trabalhavam em alguma casa de tolerância.
A minha desconfiança virou certeza numa noite que cheguei num lupanar, numa despedida de solteiro – hoje em dia as despedidas não acontecem mais. Mal entrei, já vi a sósia sendo o centro das atenções, cercada por um monte de admiradores. Depois que diminuiu o assédio, me dirigi a ela chamado-a pelo nome, que eu deduzira ser ‘o de guerra’. Foi como se eu tivesse dito uma senha. Ela saiu do meio dos elementos e veio conversar comigo, rapidamente, pois ela estava a trabalho e eu não tinha cara e nem jeito de quem pudesse pagar pelo seu tempo.
E assim aconteceu noutras vezes que fui noutras despedidas de solteiros – como o pessoal casava naquela época, acho que nem tinha tanta igreja pra dar conta. Eu chegava, a sósia vinha me cumprimentar, trocava umas palavras e depois voltava ao seu trabalho de dançarina, performista e atendente sentimental.
Como eu sempre chegava com algum amigo, estes achavam muitíssimo estranha aquela minha intimidade com a sósia. Queriam saber detalhes daquela amizade. Acredito que muitos do nosso meio achavam que eu era namoradinho da meretriz. Acontece que eu era já um universitário e como tal, não teria como manter um relacionamento com uma profissional, que vivia da arte de amar, o que quebraria uma antiga lei da economia.
Mas a desconfiança deles aumentou, numa vez que chegamos lá, a sósia cumpriu o protocolo de sempre, mas pegou a minha comanda e devolveu-me com um carimbo de PAGO e ainda trouxe uma Coca-Cola com gelo. E aí a imaginação deles foi longe. Que tratamento VIP era aquele? E justo da profissional mais famosa de Springfield do Sul? Eu só ficava me esquivando. Nunca disse a verdade.
Todo aquele tratamento começou numa noite de pouco movimento em que ela me entregou seu número de celular num guardanapo. Vez por outra, quando vinha algum forasteiro e me perguntava sobre a vida noturna, eu passava o contato da acompanhante.
Aquele comportamento dela nada mais era que um singelo agradecimento pela indicação dos seus serviços. Se eu contasse, os meus parceiros iriam me acusar de cafetinagem, que até crime é.
Por esse motivo, até hoje tenho relutância em usar qualquer botão da camisa aberto e também me recuso a usar qualquer tipo de pulseira ou corrente de metal no pescoço.

Por Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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