Bloody Mary (Fernando Bastos)

Se o simples bater de asas de uma borboleta causa modificações no ar, podendo gerar uma tempestade no Pacífico, imagina o que poderá acontecer à Humanidade se eu me aproximar daquela mesa e me declarar?

Não, não estou louco. O “efeito borboleta” existe, e se você olhar para trás, verá que talvez o que o levou a estar onde está, foi motivado por um evento aleatório, independente de suas aptidões ou carências. Um mendigo que lhe pediu uns trocados, evitando que atravessasse a rua e fosse atropelado por um motorista bêbado; uma discussão tola que o fez mudar de emprego, e assim se tornar o dono do próprio negócio; um esbarrão no supermercado com aquela mulher que anos depois se tornaria a mãe de seus filhos. Se Alois Schicklgruber, um funcionário austríaco de alfândega não tivesse conhecido Klara Poezl, ele jamais a teria contratado para trabalhar como doméstica, não teria casado com ela, e jamais teria feito um filho nela que seria chamado Adolf Hitler.

De modo que não posso errar. Tenho que decidir enquanto há tempo. Um cristão crê no “livre arbítrio”, que temos a liberdade para escolher entre o bem e o mal. Já um budista acredita no “carma”, somos resultado de ações em uma vida passada. Há quem acredita em destino, de modo que nada que eu fizer tem importância, pois assim como as Moiras fiavam o destino dos deuses e dos homens, o meu também já está traçado. Façam suas apostas. Não sou cristão nem budista, não acredito em destino, sou um “sem religião”, e, se de fato existe um Deus, que nos deu liberdade de escolha, bem que ele poderia ter nos programado para apertar o botão certo sempre que estivéssemos diante de uma encruzilhada, como estou agora, de sorte que nunca olhássemos para trás arrependidos.

Seria bem mais fácil.

Tudo bem, se deve ser assim, vou em frente. A decisão é minha, estou a menos de dois metros da mesa encimada por garrafas, copos de cerveja e taças de batidas; há poucos obstáculos entre mim e ela. Vejo seus dedos longos e finos tamborilarem a taça com um líquido verde. Ela sorve deliciosamente a bebida pelo canudo, fazendo biquinho, e de perfil, seus lábios formam um coração perfeito. Quase morro ali mesmo. Para forçar a passagem, minha mão afasta um blazer escuro, meu braço raspa numas costas brancas, dentro de um vestido de decote generoso. Não sei se terei êxito; se ela se interessará por mim. Tomara que  goste de Blood Mary.

Estou entorpecido. O som do bar é um zunido de abelhas, só lembro que antes tocava “Wish you were here”, parecia dedicada a nós, meu amor, agora o som das conversas se esvaece como bolhas de sabão, não ouço mais a banda tocando, não ouço mais nada, só vejo você, sorrindo, ladeada por imagens foscas, corpos que tremeluzem e dançam semelhantes a fantasmas.

Sento ao lado dela. Ainda bem que havia uma cadeira vazia. Coração a mil.

– Oi, aceita um gole desse Blood Mary?

Ela olha assustada, quem é esse maluco que senta ao meu lado sem mais nem menos? Mais um bêbado perdido, deve ter pensado.

Eu me aprumo, já que comecei vou até o fim.

– Estou aqui por causa de seus olhos. Sonho com eles todas as noites, e nem a conhecia. Ou melhor, sonho com você inteira. Você é quem me visitava nos sonhos, por isso vim aqui para dizer que finalmente a encontrei.

Ela bebe mais um pouco do líquido verde, limpa com um guardanapo o canto da boca, olha para a amiga da direita, ri sem entender nada. Eu continuo: – Faremos um filho que mudará o mundo; ou descobrirá um remédio para a cura do câncer ou será o presidente que irá acabar com as guerras. – Agora eu falava quase gritando, e penso que talvez eu a tenha assustado um pouco, porque ela inclinou o corpo para trás, quase caindo da cadeira. Segurei-a para evitar o tombo. – Viu? O destino da Humanidade está em nossas mãos, somos borboletas prestes a mudar os rumos do planeta.

Ela ouvia-me com a boca levemente aberta, de modo que os dentes que apareciam, muito brancos, contrastavam com os lábios vermelhos, numa expressão que não identifiquei se era de medo ou de pena. Um fantasma ergueu-se da mesa, levantou o braço e chamou alguém. Dois gigantes de ternos pretos me levantaram da cadeira como se eu fosse um saco de lixo e fui jogado para fora, na calçada. Em seguida, levei um chute no meio da boca de um sapato que não sei de onde veio. Tive a impressão de ouvir alguém dizer: “namorada”… “ tirar as mãos dela”…

O sangue jorrou da minha boca, enquanto eu tentava desentortar meus óculos e apanhar um dente. Foi melhor assim. Vai que ela aceita, e nosso filho se torna outro genocida.

Fernando Bastos

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2 respostas para Bloody Mary (Fernando Bastos)

  1. Vana disse:

    Sensacional! Parece um coito entre razão e sentimento.
    E no final um menininho justificando por que a borboleta tentou rompeu o casulo antes da hora.

    • Fernando Bastos disse:

      Grato, Vana. Estou aproveitando tuas dicas literárias, estao sendo muito importantes. abração.

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