O tubinho preto (Fernando Bastos)

– Não adianta negar – disse Antônio, com a voz embargada – O professor Benetti me contou, todos viram.

Corria o ano de 1981, Clarice era sua primeira namorada, e Antônio, então com vinte anos, já experimentava o sabor da traição. Algo tão comum na vida dos casais, em todos os tempos, mas que sempre deixa um rastro de dor, revolta e por quês. Junto do choro, veio o pedido de desculpas – Eu errei, juro que isso não vai mais acontecer. Foi a bebida…

Na cabeça dele, ela era a pior das putas. Nem bem completara quinze anos e já o traía. Logo ele, que lhe era tão fiel. Mas ela sucumbira à “luxuriae”, um dos sete pecados capitais. O outro tinha CB 400 – raríssima naquela época -, caminhonete moderna, apartamentos e até uma chácara com piscina, em que ela se banhava nua, ao lado do amante, enquanto o trouxa trabalhava duro, guardando grana para um dia levá-la ao altar.  

Mentira tem pernas curtas e logo descobriu tudo. A festa de Amigo Secreto não fora apenas confraternização de fim de ano. Sua namorada fora flagrada na cama com aquele filho de uma meretriz, os dois copulando freneticamente como dois discípulos de Dionísio. Todos viram, e, mesmo assim, ninguém lhe disse nada por três semanas a fio. Passavam por ele nos corredores do colégio, onde ela fazia o primeiro e ele o terceiro ano do segundo grau, com risos dissimulados. Talvez ele repetisse de ano voluntariamente, só para não perdê-la de vista. Quando ele perguntou como tinha sido a festa, ela se esquivava com respostas evasivas.

Um professor de Antônio, que esteve na tal festa, mais tarde lhe revelou, durante o intervalo de uma aula, que a dupla de adúlteros trepava feito um sátiro e uma bacante. Antônio não entendeu nada à época, mas ficou pensando como seria um sátiro comendo uma bacante. Deviam fazer coisas mais indecorosas do que ele fazia com sua doce garota. E repetia, quase sentindo prazer naquelas palavras: “ba-can-te…Ela é uma bacante”, e as imagens que inventava à noite, antes de dormir, da namorada dando para o amante, estranhamente lhe excitavam, de sorte que a ereção não tardava, e o gozo melava  a cueca, que não tirava devido ao cansaço.

Antônio engolia suas mentiras junto com as lágrimas. Sabia que não fora nem uma nem duas vezes. Aquela prostituta precoce se aninhava nos braços de outro homem, pelo menos o dobro da idade dela. Ainda por cima, era seu chefe, o dono da empresa onde trabalhava.

– Não adianta mentir, Clarice. Já sei de tudo.

A garota passou a semana toda pedindo perdão, enchendo-lhe a boca com seus seios juvenis e ouvidos com o canto das sereias, esfarrapadas desculpas, foi um ato impensado, e botava a culpa na bebida.

– Alguém colocou droga naquele copo.

Como era cínica! Agora se fazia de vítima. Todo pecador quando vê seu ato descoberto, finge arrependimento. Mas viveria em eterno delito, caso conseguisse manter sua funesta ação oculta dos olhos alheios. Nesse momento, não há uma viva alma que não esteja envolvida em algum pecado, que descoberto, lhe poria uma corda no pescoço, porém, mesmo assim, segue adiante crente que nunca será apanhada. E, por causa da força hercúlea em manter o crime incógnito, a dita alma viverá em constante tensão, de sorte que o envenenamento do corpo será questão de tempo.

Entretanto, ele a amava e a perdoou. Clarice o encheu de beijos e até fez um felatio antes de se deixar penetrar. Sua “eterna menina” fez juras de amor e prometera que seria somente dele, até que a morte os separasse. Antônio limpou as partes, vestiu-se, e combinou de ir buscá-la sábado, às 4 horas, para o casamento de um amigo dele.

Chegou às três. E foi logo entrando, eufórico. Queria mostrar o presente que comprara para ela ir ao casamento: um tubinho preto, justo e sexy, que realçaria as curvas daquele corpo adolescente. Naquela noite, todos o invejariam.

Disse “oi” à Cleonice, irmã da namorada, que via TV na sala e foi para o quarto dela. A moça ainda gritou:

– Não entre lá, Antônio, ela acabou de sair do banho e…

Ele voltou quieto e cabisbaixo. O presente, deixou escorregar no colo da cunhada.

– Use, é pra você.

 Fernando Bastos, cartunista e escritor.

 

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4 respostas para O tubinho preto (Fernando Bastos)

  1. Vana disse:

    O fim “não dramático” como seria de se esperar, é muito, muito funcional. Boa sacada!

  2. Tiago disse:

    Fico honrado em ajudar a compartilhar um texto com essa qualidade. Parabéns.

    • Fernando Bastos disse:

      Muitíssimo obrigado Tiago. Tais palavras me obrigam a caprichar ainda mais nos próximos. valeu!

  3. Fernando Bastos disse:

    Obrigado tb à Vana, que revisou o texto, tornando-o mais crível.

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