O ciclone e a reconstrução (Sônia Pillon)

O ciclone chegou de repente e derrubou tudo o que encontrou pela frente! Com sua fúria incontrolável, tombou árvores, fez ruir prédios altos e pequenos e levou o desespero e o medo, à medida que se alastrava pela pacata cidade litorânea. Na pequena aldeia de pescadores, os frágeis casebres de madeira foram ao chão como papel. Rajadas de ventos, implacáveis, não deixaram nada de pé, e o panorama geral era de desolação e dor. Em muitas casas, não houve tempo para escapar, e os mortos e feridos não paravam de crescer. As crianças e os idosos foram as maiores vítimas, reféns do mau destino. Pais e mães corriam em busca de abrigo. Uns procuravam salvar os filhos, enquanto outros choravam suas perdas.
Assim como as demais, nada sobrou da modesta casa de madeira de Maria, desde o telhado até o piso de cimento. As telhas de cerâmica agora não passavam de caquinhos, esmigalhados em mil pedaços. O madeirame, os caibros e as vigas que antes sustentavam aquela morada, estavam inacreditavelmente esparramados. Dividiam espaço com as tábuas que já foram paredes, um dia… Os móveis, eletrodomésticos, as roupas… Os sonhos, as lembranças, tudo havia desaparecido de uma hora para outra!… “Tanto trabalho, tanta luta para tudo acabar assim!”, lamentava Maria, que não conseguia estancar as lágrimas.
Por muito tempo ela ficou ali, caída, com as mãos escondendo o rosto, imóvel, o coração apertado e as idéias desconexas. A noite chegou, e estava na hora de sair dali. Decidiu ir para onde todos estavam indo: ao ginásio de esportes da cidade onde tinham improvisando o alojamento coletivo. O local estava completamente lotado. Mas em meio à tanta dor também havia espaço para a solidariedade. Muitos chegavam trazendo colchões, cobertores, roupas, alimentos e brinquedos para a criançada.
Enquanto se acomodava no seu canto e tentava colocar a cabeça em ordem, Maria lembrava do passado, de tudo o que viveu naquela casa, agora reduzida a um monte de escombros.. Um flash back passou em sua frente, e por longas horas Maria projetou o filme da própria vida, até que o sono a sucumbiu.
Manhã do dia seguinte chegou, e para surpresa de todos, o sol se abriu em raios calorosos, circundado por um céu de lindo azul. O mar se mostrava calmo, em contraste com a tragédia do dia anterior. A beleza exuberante do balneário tinha conseguido um milagre até então impensável: trouxe a Esperança, e também suas irmãs gêmeas, a Coragem e a Força, que os faria seguir em frente e reconstruir suas casas e suas vidas. Ao seu lado, um ancião de olhos bondosos se consolava ao ver a neta correndo pelo alojamento, alheia aos problemas de “gente grande”. Naquele momento, Maria teve a certeza de que o processo de reconstrução é possível para todos, desde que se utilize o tijolo da fé ancorado pelo cimento da determinação.

Crônica publicada no livro Crônicas de Maria e outras tantas – Um olhar sobre Jaraguá do Sul/ Sônia Pillon, Jaraguá do Sul, Design Editora, 2009, p. 82, ISBN 978-85-60332-48-9.

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC), Brasil.

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