Madame Carmely (Vana Comissoli)

Ela se curva diante do altar carregado de imagens e clama:
– Vem a mim, Madame Carmely! Pelo poder de mamãe Oxum, coberta de ouro, rio de sabedoria, protetora dos amores e dos filhos. Empresta-me teus olhos, ó mãe! Erieiê! Ô!
Os ombros se endireitam e Carmela parece crescer alguns centímetros.
No quarto austero se movimenta devagar. As roupas simples do dia a dia são retiradas e colocadas cuidadosamente sobre a poltrona gasta que está ali mais para este fim do que para servir de acento.
– Será sempre esta espécie de incorporação? Trabalho ingrato me impus pela liberdade! Ficasse casada e estaria confortavelmente deslizando pelos dias. Mentira! Estaria acabada, velha como a secura da vida e nem sei se ainda teria voz. Eu sabia que seria um esforço, nada há para reclamar. Deu mais certo do que meus melhores planos e vivemos bem, as crianças não precisam mais se calar escondendo suas almas famintas.
Todas as vezes que pensa na sua vida, alguma coisa pesa sobre as costas e ela perde a identidade que a mantém à tona. Senta-se de olhos fechados e faz da mente uma tela em branco com pouco sucesso, imagens esmaecidas teimam em flutuar diante da memória. Figuras sarcásticas como se ela fosse o anão do circo forçado a cambalhotas para que rissem e sua pouca graça enchendo a todos de enfado, embora já escorra sangue das mãos que rasparam o chão. Talvez o pouco brilho do olhar revelasse que tudo era uma farsa e de palhaço tinha apenas a obrigação.
Mil vezes perguntou-se sobre este passado maldito que esquecera não sabe em que escaninho da alma e por que, uma vez esquecido, ele a perseguia tão ferozmente. Livrava-se dele ao interpretar com tanta veracidade Madame Carmely a ponto de convencer a si mesma. Era certo que as previsões se concretizavam de acordo com o empenho e a vontade de acreditar de seus clientes, nada disso era real ou sequer plausível.
Levantou-se e a cada peça de roupa que colocava saudava as deusas femininas de seu Olimpo particular: Para cada uma tinha um pedido e uma reverência especial. No abismo de seus medos, embora não acreditasse nelas, tantas perdidas na poeira das eras, havia a certeza de que elas a abandonariam e nunca mais poderia ler as cartas do tarô, ou ciganas, ou runas para ninguém, perderia a ligação com a Egrégora, segundo diziam os mestres apenas aos iniciados.
– E sou iniciada em que? Em fazer de conta que sou. Preciso tirar estes pensamentos da cabeça, em meia hora chega o primeiro consulente.
Recomeçou a saudação. Tinhas suas preferências, não gostava das deusas donzelas que pareciam frágeis e translúcidas demais para seu gosto. As guerreiras ou vingativas eram mais estimulantes. Guerreira se obrigara a ser, mas vingativa?… Precisaria ser? De que? De quem?
– Adit Mãe de Adytas, Mitra e Varnuak, “livre de laços”. Tu o céu infinito, que é o domicílio de seus “filhos”: o sol, alua, a noite e o dia. Me dá o dom sobre o passado e o futuro.
– Ananke, chamada de Necessidade, mãe das Parcas. O Fuso da necessidade repousa em teu colo.
A cada nome invocado um brilho, uma aura quase imperceptível envolve Carmela. Um leve perfume de flores misturadas, alguns exóticos flutuam no ar. Ninguém sabe disso, mas Carmela vê cores e ouve sons nessa hora, crê fazer parte da loucura que criara para sobreviver, do tanto que se doutrinara dizendo que ler cartas não tinha nada de maldoso, bastasse que não criasse vínculos com as pessoas, não as tornasse dependentes de um aviso, um sinal. Quando começaram a voltar e retornar, tremeu e criou outra solução: não exagerava.
– Beltia, vem da babilônia a mim. Senhora dos céus, estás acima de todos os deuses e tens a capacidade de aliviar sofrimentos, dar vida, alegria e prazer.
A cartomante a chamava por obrigação, mas desconfiava dela, ou então não era uma de suas filhas preferidas já que não havia alegria e prazer em sua vida. Quando os filhos eram menores ainda se divertia com os jogos infantis, mas agora ela se tornara apenas a alimentadora, a mãe que empaca um pouco os desejos.
Da Pérsia chamava Daena, a desafiadora, com quem as almas dos mortos têm que se encontrar antes de passar pela ponte que definirá se irão para o céu ou para o inferno. Adorava Daena, a ela elevavam-se suas orações descrentes, um dia haveria de julgar os fantasmas que a perseguiam. Quais fantasmas? Olhos a fixavam nesta hora, os do marido e os… Não, nada tenho a reclamar dele, doutrinava-se. Mas os olhos do pai piscavam intermitentes nestes momentos. Carmela, ligeiro, se fixava em outra deusa. Só as femininas. Os deuses masculinos não entenderiam o coração de uma mulher.
Chamava em grupos, se imaginava dançando entre elas, fosse dança da morte ou da vida. Entendia que uma não pode viver sem a outra e o drama da morte foi criado pela pretensão das pessoas que se julgam do tamanho dos deuses e como eles querem ser eternos. Que piada! Nem os deuses são realmente imortais, eles vivem o tempo de uma cultura. O deus cristão, único e verdadeiro, existe por que a civilização que o criou ainda não se perdeu na poeira de Cronos, este sim, imortal enquanto viva o homem.
– Erínias, “cães do Hades”. Divindades infernais, cuja missão especial é punir os parricidas e aqueles que violavam seus juramentos. Guardiãs das leis terrenas, dos crimes em família, tão rigorosas no castigo que perseguem o criminoso até o mundo subterrâneo, para além, portanto, da própria morte.
E os violadores dos filhos quem os vale?
– Isis, Grande Mãe, feiticeira e libertadora. Vem de teu reino o Egito ancestral.
Era um ritual longo que ajudava a esquecer de Carmela, lentamente adormecendo sob os cuidados de Carmely, sua paz, sua força, seu repouso. Sua verdadeira fé.
É com passo firme, porém silencioso que sai do quarto:
– Valmira, estou pronta. Manda entrar o primeiro.
A ajudante, solícita e fiel, adoradora de madame Carmely, nunca está na casa quando Carmela volta, evita o encontro que trará má sorte e quebrará o poder de sua patroa bruxa. Respira os aromas de Madame, benze suas guias, limpa com devoção seus instrumentos de trabalho. Olha os desenhos das cartas como quem olha explosões solares, estrelas longínquas que nunca alcançará. Não lamenta, poder tocá-las já é muito mais do que se julga merecedora. Quem sabe um dia, por sua dedicação e amor, as cartas se mostrarão a ela como se revelam à Madame. A vida de Carmela não a interessa e nem quer saber se há ou não dissabores, os deuses escrevem certo por linhas tortas e a solidão de que houve falar, a falta de homem dentro de casa é consequência do sério karmaadquirido em outras vidas por ter se negado a fazer o bem lendo os destinos. Ninguém foge à essa lei, por isso os filhos de Carmela escarnecem do que julgam sandices da mãe, embora os sustente.
Neste fim de tarde Carmely demora-se na sala de atendimento. O incenso queima tornando o ar pegajoso e adocicado, a luz tênue coloca sombras crepusculares nas paredes, se movimentam ao sabor das velas que ardem no altar como se deslizassem suavemente ao redor da mulher que está de olhos voltados para o mundo do Invisível.
Talvez pior desaviso, ou desígnio Carmela, mesmo ainda vestida com suas roupas ritualísticas, voltou e está como que petrificada, sem pensamentos. As cartas mais uma vez pregaram-lhe peças e a morte anunciada do marido de Genecy se confirmou. De onde vem a informação? A pergunta angustiante gira em torno dela levantando cartas sopradas pelo vento da tardinha.
A dúvida e a permanente busca de algo maior, mais determinante, algum deus que dê suporte a vida aperta a garganta. Não há nada, apenas mundos e mundos bêbados rodando no infinito.
A porta geme e Mário Antônio, cambaleando como se não suportasse o próprio peso entra e senta-se frente a filha.
– O que queres? O que fazes aqui? Quantas vezes já te expulsei? Volta para teu túmulo no inferno e me dá paz.
– Enquanto dentro de ti, não puderes me perdoar, viverei em tuas miragens. Enquanto não olhares para trás, estarei presente em teus devaneios e não poderás abrir tuas portas para nada e ninguém.
– Não tenho nada a te perdoar a não ser a obsessão de viveres para sempre. Não tens significado, foste pai e mais nada, estás morto, não me serves para coisa alguma.
Cenas, visões, cheiros, arranham a mente, o peito, o sentimento. Criança menina rolando na grama, pai acelerando o carro distraído, a cabeça pensando em que? Carmelita sabe, mas não ousa entender e nem sequer acreditar. Viu. O pai e a tia sovando o sofá enquanto a mãe fazia as compras. O gemido do sofá velho e roído, o cheiro que sempre ficava depois. A cachorra latiu e correu de encontro ao carro o barulho foi choque. Não havia mais cachorra e o pai nem sequer parou, fez um gesto de desagrado. O mesmo que repetiria mais tarde, quando o ruído de sofá sovado se transferira para cama de Carmela.
Ela teve um sobressalto. Como apagara isso? As mãos nojentas do marido em seu corpo no mesmo dia que voltava da amante. Os olhos de ambos lambendo-a como se fosse um doce melado e que dá um pouco de azia depois.
Saiu da sala como Carmela, mas algo no olhar que se tornou direto sempre e na sensualidade que se soltou em suas ancas estavam diferentes.
No quarto abriu os armários e fez sacos e sacos com as roupas de Carmela. Realmente tudo morre inclusive o que sempre se pensou que foi. As peças de cores vivas, os lenços e as sedas de Carmely saíram do baú e ocuparam os espaços vazios.
No altar as deusas todas tinham feições muito humanas e traços semelhantes, iguais? Aos de carmela.

(Vana Comissoli)

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2 respostas para Madame Carmely (Vana Comissoli)

  1. Tiago disse:

    Uma história forte, bem ao seu estilo característico cara Vana. Um choque de realidade, sempre.
    Parabéns pelo conto.

  2. inacio.carreira@gmail.com disse:

    Vana, sabes que Freud explica…
    Personalidades, identidades, entidades…
    Ou não.
    Beijos no coração.
    Inacio

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