O sêmen desperdiçado de Onã (Fernando Bastos)

Adaptado de Gênesis 38,9

O casamento de Judá com Sué, filha de um cananeu, foi comemorado com bom vinho, dança e muita música. Em menos de um ano, nascia Her, um lindo menino, saudável e de choro forte. Logo depois vieram outros dois meninos, Onã e Sela.
Quando Her já estava em idade de se casar, Judá escolheu para o filho primogênito uma bela mulher de nome Tamar. Por causa das iniquidades e vida licenciosa de Her, o deus dos hebreus o castigou tirando-lhe a vida. Passado o período de luto, Judá levou Onã ao campo, e, enquanto passeavam observando bois e ovelhas, disse, Meu filho, deve observar a lei do Levirato, de modo que tomará Tamar, mulher de nosso querido e muito amado Her, para gerar a posteridade de seu irmão morto. Meu pai, respondeu com tristeza Onã, O senhor sabe que os filhos não serão meus, portanto, não gostaria de me unir a Tamar. Além do mais, amo outra mulher, chamada Ana, e é com ela que gostaria de me casar.
O pai não gostou da novidade e disse com firmeza, Filho, eu repito, deve obedecer a lei de nosso povo. Não queira desobedecer ao Senhor; veja o que aconteceu com Her, ser irmão. Por causa de seus pecados, deus o tirou de nós…
Naqueles tempos, imaginava-se que deus era um Ser que tanto podia trazer a bonança, como a morte. Temia-se a divindade mais do que a amava, como muitos filhos ainda hoje a seus próprios pais.
Por favor, pai, lamentou Onã em prantos, Deixe essa tarefa ao meu irmão mais novo, Sela; tenho certeza que ele não se malogrará em recebê-la como esposa. Já os vi conversando diversas vezes, e, não há quem, tendo os visto juntos, em risinhos e trocando segredos ao pé do ouvido, pense em mais nada senão que foram feitos um para o outro. Judá balançou a cabeça em desagrado e disse, Não seja a desonra de sua casa, Onã. Não basta a vida que seu irmão levou, agora vem você querendo afrontar nosso deus e Senhor?
O casamento de Onã com a cunhada realizou-se menos de seis meses depois dessa conversa. No entanto, ambos não pareciam felizes. Onã amava Ana, e Tamar morria de amores pelo cunhado mais novo. Levou algum tempo para que ambos decidissem cumprir a Lei. Em uma noite de calor abrasante, quando haviam chegado em casa após uma festa promovida por um conhecido da família, Tamar, bastante alterada pelo vinho, desceu a túnica de algodão, na frente do marido, e parou de pé a sua frente, com os pés ligeiramente afastados um do outro, queixo erguido, numa posição de forte apelo sensual, revelando seu corpo trigueiro e ardente de desejos atrasados. Onã ficou paralisado diante de tanta beleza, e desejou logo unir sua carne àquele corpo perfeito.
Em segundos, ambos estavam entrelaçando seus corpos, e Tamar deu seguidos gemidos de prazer quando sentiu o membro de Onã, rígido como uma lança, penetrando sua viscosa gruta. A mulher pressentiu a chegada do orgasmo do marido, de modo que o abraçou com mais força ainda. Encha-me com sua semente, Onã, implorou ela. Como uma janela aberta abruptamente deixando a luz entrar, a mente de Onã se iluminou e no mesmo instante lembrou-se que o fruto daquela relação não pertenceria a ele, mas ao irmão morto. Apoiando-se com as mãos na beirada da cama, Onã soergueu-se num movimento brusco e retirou-se de dentro dela, a tempo de ejacular na palha ao lado da cama.
Espantada, Tamar perguntou, Por que fez isso, marido? Onã respondeu, Não posso deixar minha semente em você, mulher. A criança que nasceria não seria minha, mas de meu irmão. Não conhece a Lei? Que se dane a lei, rosnou a mulher, Quero que me dê um filho, Onã. Terá que pedir a outro, menos a mim, respondeu o homem. Tamar, cheia de ódio, praguejou, Está me rejeitando, Onã. Deus o castigará. Onã vestiu a túnica, calçou as sandálias e deixou a casa, indo perambular pelos campos. Talvez Tamar tivesse razão, e sua recusa em engravidá-la pudesse despertar a cólera do Senhor.
Para amainar o pavor de um encontro com o Anjo da morte, antes de sair de casa, Onã pegou um jarro de vinho recém fabricado. Embebedou-se a noite inteira. De manhã, quando os primeiros raios de sol tingiam de dourado os montes de Odolão, alguns pastores encontraram o corpo. Não havia nenhum sinal de violência. O coração de Onã já não batia mais.

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5 respostas para O sêmen desperdiçado de Onã (Fernando Bastos)

  1. Fernando Bastos disse:

    Depois de enviar o conto, percebi que esqueci de mencionar que, o ato de Onã em ejacular fora, temendo engravidar a mulher, gerou o vocábulo “onanismo”, que significa : 1 Coito incompleto para evitar a fecundação. 2 Vício da masturbação. (Dicionário Michaelis). A prática do onanismo é proibida pela Igreja até os dias atuais.

  2. Vana disse:

    Teu conto me faz pensar que Deus serve a muitos deuses, mais ou menos humanos, sendo o próprio deus criado tão à semelhança do homem com paixões, ciúmes, leis que servem apenas a ele mesmo, sem nenhuma significação que não seja egóica: “Ama teu Deus acima de todas as coisas” sento-me diante de Nietzsche e…
    O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias. — Nietzsche, Sobre Verdade e Mentira num Sentido Extra-Moral

    • Fernando Bastos disse:

      Vana, e o que me deixa boquiaberto, é perceber o grande número de pessoas que acreditam que as desgraças são provocadas por um deus, como forma de vingança contra os filhos que nao andaram na linha.

      • Vana disse:

        Ah, Fernando, mas é tão mais fácil deixar que alguém, superior de preferência e intocável, demarque esta “linha”!
        De que outra maneira os homens conseguiriam estabelecer uma Ética? São ainda tão adolescentes, precisam de um pai rigoroso e vigoroso para domá-los.

  3. Tiago disse:

    Ainda acho que num sentido teórico existe de fato um DEUS, um criador, um catalisador, um ideal ou uma espécie de verdade absoluta. Mas na prática os deuses que os seres humanos nos apresentam (sejam eles Krishna, Allah, Zeus ou qualquer outro) são apenas uma pálida sombra da verdadeira essência. Servem muito mais aos objetivos egoístas dos humanos do que como um ideal a ser atingido.

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