Terra de Ninguém (Inacio Carreira)

Antes da Terra tornar-se quase nada, após anúncios de hecatombes ecológicas e o choque de um cometa contra nosso planeta, quase colisão final, big bang às avessas, um Ninguém se abriga em uma caverna (cave, restos de habitações, abrigos improvisados) buscando reter na memória o pouco do que lembra ou o que – pelos exercícios compulsivos – não consegue esquecer.
Repete incansavelmente antigas fórmulas, junta pó – das estrelas? –, do pinga-pinga faz sua fonte de vida: a água continua imprescindível à permanência da espécie, Ninguém – intuitivamente – sabe disso, sente isso, sua lembrança, aliada da biologia, lembra-o que o precioso líquido é, foi e será sagrado.
Reconstrói suas memórias com o que arrebanha aqui e ali, do pouco que sobrou no que restou de terra… Faz nesta faina um bric-a-brac, um mercado de pulgas, uma enciclopédia do que existiu, em parte, em algum local desse planeta. Saudades no resplandecer das imagens em meio às letras que já esqueceu como interpretar. Mas as imagens… As imagens! São aterradoras, lindas, mágicas…
Enquanto está no afã de orar, amealhar, beber, reverenciar a Caixa – ah, essa caixa que esconde mistérios – Ninguém volta ao primitivo do ser… Ter, ter, ter… Medo que falte, como pode faltar a energia elétrica que aprendeu a produzir na mini-usina, como pode faltar água, que resgata gota a gota e utiliza num ritual transformador, pacificador, benfazejo…
Não vê a chegada de um ser lindamente disforme: duas pernas, quatro braços, duas cabeças… meio macho, meio fêmea… A porção fêmea desprende-se e adere ao piso, inerte, perdeu sua referência ao soltar-se do suporte vivo que a transportava. Já o macho, homem/felino, fruto de experiências genéticas dos últimos tempos… últimos dias? De onde tirou essa ideia? Agora percebe formas parecidas com a sua: Ninguém está maravilhado, unge Het tentando trazê-la da imobilidade, da passividade… Há quanto não via semelhante, parece real, tem articulações… É preciso restaurar suas funções vitais, buscar seus pontos de equilíbrio, energizar seus chacras…
He fuça por ali, vigiando sua preciosa carga, sua protetora, mentora, líder… A água lhe é negada, o que o torna irascível. Inquieto, o espaço é pequeno para tanta curiosidade, que recai sobre a Caixa, objeto de culto de Ninguém que, primitivo mas não ingênuo, passa a dar atenção redobrada ao relicário. Amarras, correntes, braços protegem noite e dia aquela que, parece, contém seu destino.
Com suas formas delicadas e supostamente frágeis, águas-vivas preenchem os espaços, disputando as águas – quase mortas – com outras formas de vida, eliminando-as. Atormentam os sonhos de Ninguém, que de todas as maneiras tenta livrar-se delas, expediente que se torna, para ele, como um decreto de morte.
A história é relembrada. Desde o princípio do fim – ou de um novo recomeço, Kali ancestral da transformação – Het, em sua aparente doçura e tranquilidade, entrega a He o instrumento de morte: o destino de Ninguém está selado. Vermelho, dor, sangue… Estertores ante o inevitável. Retomada a figura quase mitológica, a Caixa muda de dono e vai conhecer outras terras, outros ninguéns, energias. Sangue! Objetos são testemunhas de uma história de espera: na Terra de Ninguém o ser continua – como sempre o fez, desde o princípio dos tempos – aguardando a hora da morte. Amém.
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Dandara Mendes, Maykon Junkes e Tiago Novo, sob a direção de Fred Paiva, intrigaram públicos diversos na montagem – itinerante – do espetáculo Terra de Ninguém. Em 2012, caso o texto volte a ser montado, não perca.

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2 respostas para Terra de Ninguém (Inacio Carreira)

  1. Vana disse:

    Devo levar um canudinho que alcance o Aquífero Guarani? Deu 1 sede!!!
    Com esse calor 40° do Porto essa visão já nem é mais tão fantástica assim!
    bjooo

  2. Fred Paiva disse:

    Ai, Inácio! Nem sei dizer o quanto ficamos lisonjeados com sua linda interpretação da peça! Que venham mais apresentações!

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