O sexo evoluído (Marcelo Lamas)

No ano passado, assisti a um filme nacional com o roteiro composto de depoimentos reais interpretados por atores. Num deles, o ator diz: “Admiro as mulheres. Elassão mais evoluídas, decididas. Os homens são diferentes. São fechados. Têm que estar bêbados para dizer o que pensam. Alguns precisam procurar um analista para dizer ‘doutor, acho que sou meio gay, mas não tenho certeza’. Por isso há uma enormidade de revistas para mulheres, onde elas dizem tudo o que pensam e para quem quiser ouvir (ler)”.

Outro dia, numa turma de amigos, um sujeito referiu-se a uma modelo famosa, cujo outro não lembrava. Na tentativa de ajudá-lo, falei:

– É aquela que está na capa da revista Gloss.

Pegou mal. Na hora começou a gozação da galera:

– Ihhhh! O cara sabe quem tá na capa… De qual revista mesmo, hein?

Outro emendou:

– O cara deve saber o nome daquelas quinze “cor vermelha” de batom.

E ficaram me olhando com aquele olhar paterno atravessado, no qual ficou explícita a necessidade de uma explicação, sob pena de ser expulso da mesa. O mais exaltado era o Pinheiro, que não é sobrenome e sim alcunha, devido a sua semelhança com a árvore: “Quanto mais o tempo passa, mais grossa fica”.

Esclareci:

– Olha, eu vi a revista na gôndola do supermercado. Como eu sou colaborador da Blush, preciso saber do que as mulheres estão falando, no que elas pensam. O que agrada e o que as irrita.

Sempre gostei de ver as beldades que estampavam as revistas que a minha mãe comprava. Depois passei a ler as reportagens e a tentar entender – só tentar – aqueles pontos de vista. Naquela época, sem internet banda larga e com um militar na presidência as informações eram bem restritas para um pré-adolescente perguntativo como eu.

Vez por outra compro revistas femininas para a minha namorada, e dou uma olhada depois. Aliás, não sou muito seletivo com relação à leitura ocasional, qualquer jornalzinho promocional de loja me interessa, o lixo de papéis lá de casa tá sempre cheio. Ela vive me chamando de Bratz.

Mas quando vou à banca começo comprando as revistas masculinas e de futebol, depois dou uma olhada no resto.

E foi numa dessas que li a melhor frase de 2011:

Um homem não deve pedir desculpas por estar olhando para um decote, a não ser que seja uma parenta de primeiro grau”.

Não adianta, o instinto age sempre primeiro.

 

 

Marcelo Lamas, escritor. Autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

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2 respostas para O sexo evoluído (Marcelo Lamas)

  1. Marcio Erino Ochner disse:

    Muito bom, passa a ser isso mesmo… curioso em 2º grau… risos
    Assim por diante aperfeiçoa-se o olhar…

  2. Vana disse:

    Já falaram que Chico Buarque é um grande entendedor da alma feminina, no que concordo e como chegaria a este ponto sem conhecê-las?
    Acho as revistas femininas uma eca, mas as masculinas não ficam atrás, as de gays idem. Os gibis (que não são mais gibis) ficaram ótimos
    Na verdade o que vale é a forma e o conteúdo e, infelizmente, na maioria são uma droga recheadas de publicidade, ou o contrário.
    Como poderia escrever um conto me chamando Alberto se não conhecesse os Albertos? Acho que é por aí.
    Não ler isso ou aquilo não deixa de ser tremendo preconceito. Senhores machos que me desculpem, mas lembrem que as mulheres jogam ótimo futebol e os grandes chefes de cozinha são homens.
    Será que certos artigos vem pendurados numa vagina ou num pênis? O interessante que um é louco pelo outro!

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