O PECADO DE SARA (Fernando Bastos)

Em algum lugar da Palestina. Três séculos antes de Cristo. A lei mosaica imperava, e o Senhor abençoava quem a seguia, e amaldiçoava quem se desviasse dela.
Sara era a moça mais linda que Josias já vira. Usava um gracioso diadema na cabeça, caminhava como as filhas de Sião, olhando com o canto dos olhos, de pescoço erguido, balançando colares, brincos e argolas nos tornozelos, chamando a atenção para seus pés, dentro de sandálias feitas de couro. A túnica de linho que Sara usava ia até um pouco abaixo dos joelhos, de modo que as panturrilhas, bem torneadas e morenas, luziam ao brilho do sol, atiçando olhares desavergonhados dos homens da congregação israelita.
A hebreia tinha dezesseis anos, e já estava prometida em casamento a Josias, um honrado artesão que confeccionava lindas peças de bronze e metal para embelezar as mulheres de Israel. Ora, ninguém desconhecia a fama de vaidosa da mulher israelita. E, além de vaidosas, eram belíssimas. Josias aguardava ansioso a noite de núpcias. Sonhara várias vezes com a noite em que romperia sua gruta virginal e beberia seu mel. Quando pensava nisso, lembrava dos poemas sobre o amor, escritos séculos antes por Salomão, muitos dos quais, ele próprio já declamara para sua amada.
O casamento foi animado, embalado ao som de pandeiros, tamborins e flautas. Todos estavam felizes. Especialmente o noivo. Não, todos não; havia alguém muito preocupada, como se soubesse que uma grande torrente estava para chegar. Josias percebeu o olhar tenso da noiva e pensou, deve estar imaginando como será sua primeira noite, coitadinha, nunca conheceu homem.
À noite, quando se encontravam nus, sobre a cama forrada de palha, Josias foi paciente com sua pombinha que gemia baixinho e suava como uma camponesa numa tarde quente de sol. Ele estranhou. Entrou com muita facilidade naquele corpinho. Estocou várias vezes, no começo devagar, depois com rapidez, chegando a ser até um pouco agressivo.
– Tu não vais sentir dor? – gritou o noivo.
Ela enrubesceu.
Não havia marcas vermelhas no lençol.
Na manhã seguinte, ela foi levada às Autoridades. A denúncia foi confirmada. Só restava cumprir a lei de Javé, o deus hebreu. Sara foi levada até a frente da casa de seus pais. O primeiro a levantar o braço com a pedra na mão foi Josias, um pouco relutante, não conseguindo evitar uma lágrima que rolava pela face. Depois voou sobre ela uma saravaiada de pedras. Ela caiu e se encolheu como um feto. O sangue melou a terra. A moça ainda levantou um braço num último pedido de clemência, mas não adiantou.
O braço caiu ao lado do corpo.
Deu um último suspiro.
A lei de deus havia sido cumprida.

“…Se, porém, o fato for verídico e não se tiverem comprovado as marcas de virgindade da jovem, esta será conduzida ao limiar da casa paterna, e os habitantes de sua cidade a apedrejarão até que morra, porque cometeu uma infâmia em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim, tirarás o mal do meio de ti.” (Deuteronômio 22,20)

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Sobre Tiago Carpes do Nascimento

Brasileiro, casado, vinte e poucos anos, escritor por obrigação e prazer, professor, curioso, eclético em matéria de música, adora livros e filmes inteligentes (instigantes), cristão, conservador, gosta de política, já sonhou ser presidente do Brasil, presidiu comitê municipal de sigla política, mas a desilusão foi tanta que hoje se contenta apenas em contribuir para a melhoria da educação e para o crescimento vegetativo da população, tendo dado o seu contributo em duas ocasiões. Belíssimas ocasiões, diga-se de passagem!
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6 respostas para O PECADO DE SARA (Fernando Bastos)

  1. Vana disse:

    Ainda bem que na frase final Deus está em minúscula!
    “A lei de deus havia sido cumprida.”

  2. pois é Vana, infelizmente a maioria crê naquelas leis como sendo inspiradas num Ser divino. no meu entender, se há um Deus (tenho dúvidas mas respeito quem crê) ele jamais colaborou com um til em qualquer livro dito “sagrado”. Tanto a Bíblia quanto o Alcorão, mandam matar (ordens diretas de deus) aqueles que nao creem seu deus. O Novo Testamento piorou a situação, pois promete um castigo pior: sofrimento eterno no inferno para os descrentes. Isto é, Deus é amor, mas se nao crer nele, te manda pro inferno. Tais livros são frutos do pensamento de uma época, escritos sobretudo como propaganda religiosa, para sustentar o predomínio de um deus sobre os outros. mas enfatizo, é apenas minha opinião e no que creio.

  3. Vana disse:

    Diria mais: são deuses criados pelos interesses de poder dentro de determinada cultura e dela trazem as características.
    Com tua resposta a proposta se tornou interessantíssima, mas não consegui vê-la no texto além da observação que fiz. Seria ótimo se conseguisses (melhor ainda se induzido e não escrito) colocar tua tão clara visão. Clara e lógica pelo menos para mim que não tenho este deus bifurcado e dicotômico.

  4. Oi Vana, faz sentido. Tenho uma série de contos (adaptações de textos bíblicos) que em alguns deles introduzo uma crítica, com o propósito de fazer o leitor comum (que não é teu caso) de refletir sobre certas verdades teológicas. Mas sei que estou mexendo num vespeiro, como disse uma amiga, pois religião sempre é um tema delicado.

    • Vana disse:

      Oi, Fernando
      Adoro o tema, tenho vários contos sobre ele , inclusive, um que nem sei se é conto, crônica, ou loucura mesmo (hehe) que fez 1 amigo dizer que seria excomungada, como não comungo mesmo, continuei a escrever “barbaridades”. Vespeiro, se já leste alguma coisa minha, deves ter visto que é comigo mesma.
      Adoraria ler teu trabalho, achei muito interessante a forma de colocar em tempo remoto, eu seria + incômoda do que tu, mas é bem sutil, agora que peguei o “caminho das pedras”. Tens algum blog que eu possa ler?
      Abç

  5. Vana
    Gostaria de ler teu conto (ou crônica….) que teu amigo disse que serias excomungada. Meu email é fernandoilustrador@gmail.com. Sim, já percebi que você Tb gosta de temas polêmicos. Você tem algum blog com teus textos? Se tiver, me manda.
    Eu tenho um blog especial sobre um livro que publiquei : “Teofania”. O endereço é http://www.fernandobastosescritor.blogspot.com.
    Quando palestrei numa escola sobre o tema do meu livro, numa sala de terceiro ano do segundo grau, uma mulher já com uns 30 anos, evangélica, me alertou que irei para o inferno por causa do livro. Tudo pq na obra, que é ficção, mostro um Jesus humano, sem a roupagem mitológica que puseram nele depois de sua morte.
    E escrevo contos e artigos no Recanto das Letras: http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=28127

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