Epifânia (Vana Comissoli)

Simplesmente virou estátua enquanto as palavras assaltavam seus ouvidos e roubavam a compreensão bem debaixo do nariz. Depois que a porta bateu ainda permaneceu quieta, alguma coisa não encaixava na bagunça restante no apartamento. O que as pobres plantas tinham a ver? Elas nem precisam levar tiro, ou facada, basta que as deixe à míngua ou ponha o vaso no lixo. Plantas são frágeis e dependentes. Quase sentiu as folhas murcharem em seu próprio caule lerdo e ingênuo.
Um grande amor quando acaba… Grande amor acaba? Um médio amor quando acaba… Médio amor não tem que levar um médio tempo para acabar?
Quando um amor de qualquer tamanho acaba sai com delicadeza, fechando a porta sem ruído, deixando sobre a mesa um ramo de flores semi-murchas, ousemivivas, como um ato falho que a gente faz de conta que entendeu e a intenção não era aquela, mas abemos que era. Fica possível a generosidade de imaginar a ausência como uma volta que não aconteceu.
Não foi assim. Foi uma acusação atrás da outra e nem sabia mais quem era o bandido, ou talvez fosse mesmo ela e não havia percebido o roubo, sendo uma cleptomaníaca disfarçada até para si mesma.
Depois a maravilhosa massa carbonara que ainda respingava de aroma a sala, fora jogada na pia. “Dá para o gato! Bicho é que se prende pela barriga!” Teria errado na dose de bacon? Tinha provado, estava uma delícia, isso antes de recolher uma porção da pia mesmo por que afinal não era de jogar comida fora. Um desperdício enquanto tanta gente passa fome. Deu-se conta que não tinha gato e nem cachorro para dar o que se molhara na cuba. Como daria ao gato então? Estava tudo do avesso e ela devia ter atravessado o Equador e tomado champanhe demais, bem que a avisaram que faria besteira se abusasse. Talvez o vestido de alças fosse mesmo uma saia de ula-ula.
Havia também a cama arrumada e gastara seu melhor perfume jogando gotas nos lençóis. Outro desperdício, esse não havia como recuperar e ela não dormiria em cima deste aroma nem morta. Muito menos morta, deve ser horrível chegar do outro lado da ponte com cheiro de quem queria se deitar com um homem e não deitou.Caronte não aceitaria nem 30 moedas!
Resolveu anotar os desperdícios por que estavam ficando muitos, seriam necessárias várias sessões psicanalíticas para resolver este lesa poupança. Mas foi a merda do psicanalista que mandou arranjar um namorado! É o que dá ouvir estes babacas que veem pena em todo ovo. Às vezes um charuto é apenas um charuto mesmo que mate o pai da psicanálise de câncer depois, donde se conclui que um charuto sempre é um charuto cheio de recheio que não enxergamos.Sempre. Não fálico, talvez, não sabia bem, mas com certeza tendo consequência, o que era uma merda por que ninguém é radar para fiscalizar o tempo todo.
Onde é que ficaram mesmo os talheres? Escondera, no meio da refega lembrara-se da mulher assassinada pelo amante com a pazinha de lixo, talheres seriam ainda mais perigosos. Ficaria horrorosa na primeira página com um garfo enfiado na jugular. A maquiagem já estaria derretida e teria aqueles riscos pretos de rímel escorrendo pela cara..
O problema maior era ter uma vizinha de 78 anos, nem um pouco surda e de nome Assuntina. Na certa não confundiria “vai à merda” com “aurevoir”. Tinha 5 gatos e todos com cara de felinos selvagens. Só pelos gatos que odiava, teria motivos suficientes para uma saída elegante e não este escarcéu de fim-de-linha.
Como poderia adivinhar que o tal namorado… Como era o nome mesmo? Droga!Sempre trocava o nome do sujeito, por isso resolveu dar um apelido carinhosos: Bimbo. Ia adivinhar que o cara tivera um cachorro com esse nome, que enlouquecera e deixara aquela marca escura e redonda na bunda dele?
Livre associação – ouviu a voz rubicunda do analista, mostrando o quanto ela era idiota.Não sabia muito bem o significado de rubicunda, mas era assim que sentia a voz e era uma palavra horrorosa que caía à perfeição na ascendência germânica que o deixava de bochechas vermelhas fosse inverno ou verão, portanto a voz devia seguir a mesma linha.
E como poderia saber que chama-lo de filhinho não seria considerado carinho, mas um desejo oculto de ter filho e isso o apavorava? Ela por acaso queria filho? Claro que não! Estes monstrinhos tão fofinhos e cheirosos, falando que é um amor, mas bagunçando tudo e provavelmente seriam alérgicos ao gato que pretendia ter para nunca mais jogar comida fora. Filho? O que é isso? Já ia para os 35 anos e logo seria fruta passada e filho é uma invenção dos hormônios malucos que adoram choro de criança e o maldito sorriso engraçadinho. Como são mornos de se por no peito! Amamentar? Nem pensar! Tinha posto um silicone a fuzel, não faria este desperdício de jeito nenhum. Mas eles são um amor e quando começam a falar tlocandoasletlas, então…
Olhou pela janela desperdiçando o olhar e deu-se conta que o sol ia alto.Também estas lâmpadas modernas dão a impressão que é diaquando ainda é noite. Dentro de casa nem se vê mais o dia chegando, a menos se estiver de olhos fechados no bom do sono de todas as noites, esquecido lá pelos 28 anos.
Deu uma vontade enorme de pão quente e, conscientemente, é claro, resolveu desperdiçar o integral que guardava muito bem guardado na geladeira. Pegou a bolsa e foi à padaria.
No meio da rua lembrou que nem sequer sabia se tinha padaria no bairro, só comprava no supermercado para agilizar tudo e não jogar gasolina fora. Ir a pé era a solução sensata, perguntaria a alguma mulher com cara de quem leva pão para casa todas as manhãs, com certeza teria filho esperando de bico aberto. Filho? Argh! Argh? Não teria posto o macarrão fora se tivesse filho e nem teria confundido o cara com Bimbo, seu cachorro da infância. Olha só! Que coincidência! Lembrou que também tivera um Bimbo em sua vida e era uma graça de pelo acinzentado igual ao cabelo do cara que não sabia dizer good bye.
As pessoas colocam cada coisa fora! Que desperdício! Olha o cachorro de pelúcia tão fofinho e da cor do Nescau que adorava, jogado na lixeira como se não servisse para mais nada. Nem faltava olho ou focinho igualzinho aos de verdade.
Enquanto o tanque enchia de água com sabão líquido que era mais cheiroso e rendia mais, ela preparou um sanduiche de pão integral, afinal não descobriria nunca onde era a padaria e o Bimbo era grande, uns 60 cm, estava sujo o coitado, precisava de banho urgente.
Quando o telefone tocou pelo meio da manhã, logo que conseguira dormir depois de colocar o Bimbo para secar e energizar sob o sol, não entendeu direito quando pelo fio avisaram: É o Bimbo.
– Que Bimbo? O da infância, o de pelúcia no varal ou o animalão idiota que não sabe dizer nem aurevoire nem good bye?
Sentiu um furioso prazer ao se despedir antes de quebrar o telefone:
– Tschüss.

Vana Comissoli

Anúncios
Esse post foi publicado em Prosa e marcado , . Guardar link permanente.

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s