O sêmen milagroso do padre Jesuíno (Fernando Bastos)

A faxineira entrou no quarto religiosamente às oito da manhã. Ouviu o barulho do jato de urina que vinha do banheiro contíguo ao quarto do padre, e imaginou que aquele santo homem era afinal, igual a todos os espécimes masculinos: tinha pênis, bolas e também precisava aliviar a tensão da bexiga.
O simples fato de pensar nesse apêndice de um homem de Deus ruborizou-lhe a face macerada, cravada de rugas. Ângela beirava os 50 anos, era uma beata. Não era feia de estampa, apesar do andar meio de banda. Houve dias em que alguns paroquianos de língua mais afiada aventavam mirabolantes histórias sobre o padre Jesuíno e ela. Mas eram só boatos. Ângela não era apenas fiel a Deus; mantinha-se casta diante dos prazeres da carne.
Conformava-se com a artrite reumática. Dizia que a doença nos ossos era sua grande amiga, que a deixava mais próxima ao Senhor Jesus. Já abrira as cortinas do quarto e preparava-se para trocar os lençóis quando o bom sacerdote saiu do banheiro, e, como sempre fazia, saudou a empregada com um largo sorriso:
– Bom dia, Ângela…
– Bom dia, sua bênção, padre.
– Deus a abençoe – e foi para o refeitório, tomar o café.
Sozinha no quarto, a mulher deu prosseguimento à sua labuta diária. De chofre, algo lhe chamou a atenção. Uma revista de “mulher nua” estava sob o travesseiro. O padre havia esquecido de guardá-la. Mas havia mais uma coisa: uma mancha sobre o lençol, e, ao tocar o dedo médio, a faxineira sentiu a viscosidade do líquido. “Será creme de barbear?”, pensou a mulher. Levou o dedo a um centímetro das narinas e cheirou. Pareceu-lhe ter cheiro de Kiboa, a meleca. Ângela levou o dedo à boca, sorveu vagarosamente a massa gelatinosa, estalando várias vezes a língua para apurar o paladar e engoliu.
– Hm, parece pudim. Mas sem açúcar.
Na cozinha, encontrou a amiga temperando o almoço e contou o “milagre”.
– Quer dizer que as dores sumiram? – perguntou a cozinheira – Como assim?
– É um milagre, Valdirene – disse Ângela, radiante – Foi logo que saí do quarto do padre.
– Ele a abençoou? Você fez alguma reza especial? Viu o Anjo da Misericórdia?
– Não, não. Fiz o que sempre faço toda a manhã…Ah, tem uma coisa que preciso lhe contar…
– Conta, não me esconda nada…
Dez minutos depois, aparecem Jesuíno e um padre mais moço, o Ramirez, para inspecionarem o almoço do dia. A cozinheira não perdeu tempo:
– Padre, aconteceu um milagre. Ângela foi curada do reumatismo.
– Isto é verdade, Ângela? – perguntou Jesuíno, cético que era.
– Verdade verdadeira, padre – atestou a própria agraciada pelo “néctar dos deuses” – veja, consigo até fazer flexões.
– Você mudou o medicamento?
– Não, padre, são os mesmos remédios de sempre. Aqueles corticóides que me fazem engordar. Mas não vinham mais fazendo efeito. Até que hoje…
– Até que hoje?… – repetiu o padre.
– Até que hoje Deus resolveu me curar.
– Ângela, fale do “creme consagrado” – insistiu Valdirene, dando uma cotovelada na amiga.
– Creme? Que creme? – perguntaram os padres.
E Ângela explicou tudo aos dois padres, que ouviam estupefatos a narrativa da mulher. “Meu Deus”, pensou Jesuíno, “será meu sêmen milagroso?”.
Um mês se passou desde aquela manhã do “milagre”. Jesuíno decidiu se confessar. Não conseguia mais dormir direito. E Ramirez era o mais apto a ouvir sobre sua diversão solitária.
– Date gloriam Deo – fez o padre Ramirez por trás da janelinha do confessionário. Deus abençoou seu líquido seminal, meu irmão. A Igreja tem registrado preciosas relíquias de santos como ossos, sangue, cordas vocais, dedos. Mas “porra santa” é a primeira vez na história.
– Não brinque com algo tão sério, Ramirez – pronunciou o penitente.
– Não estou brincando, Jesuíno.
– Eu quero minha absolvição, padre.
– Ora, Jesuíno, bater uma punhetinha não é pecado. Eu mesmo toco as minhas de vez em quando…
– Uma santa mulher bebeu meu sêmen. Por descuido meu. Preciso de sua absolvição…
– Ao contrário, irmão. Você merece toda a glória dos céus, todos os cânticos sagrados dos anjos celestiais. Jesuíno, você é um santo.
Nesse instante, padre Ramirez saiu do confessionário, tomou a mão de Jesuíno e a beijou com fervor.
– Padre Jesuíno, preciso que você cure minha gastrite.

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4 respostas para O sêmen milagroso do padre Jesuíno (Fernando Bastos)

  1. Vana disse:

    Tão envolvente que esqueci meu hábito de procurar “pena em ovo”.
    Agradará a todo mundo, este é um feito e tanto. Parabéns.

  2. Hehehe.
    Eu ri bastante quando li esse texto. De fato ficou muito bom, o final é surpreendente e bastante plausível, diga-se de passagem.

    Abraços.

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