Menino Jesus Gaudério (Vana Comissoli)

Lembrava uma dessas tardes de inverno pampeano, o céu empedrado, sem um ventinho, sinal de geada braba. Mal dera o Ângelus e não se encontrava viv’alma na rua, frio de renguear cusco.

A china vinha embuchada de nove meses. Agarrava-se nas rédeas quase deitada sobre o cavalo mancarrão, único que conseguira exatamente por não valer nada. O caborteiro, responsável pela empreitada, sumira na perdição da vida, desconhecendo que a repontada trazia piá gaudério para esse mundão sem porteira.

Quando sentiu o primeiro garroteamento no baixo ventre, apertou os calcanhares na ilharga do animal que estucou o passo. Olhasse para todo o lado e não enxergaria nem uma taperita de consolo. Fez a curva da estrada já agarrada na reza para Nossa Senhora do Bom Parto, única fidalguia de que se podia valer.

Despontou, lá no longe, um bolicho guaipéca, desses perdidos no meio do nada. É o Deus dará e o bolicheiro. Acelerou a montada mais uma vez.

Sem querer, apertou os pés na ferroada da parição e o animal respondeu, o bicho bagual, embora macho, entendia dessas coisas de botar cria no mundo. Na frente do bolicho apeou-se devagar, a barriga era um escorrego só.

Apesar do frio, ou por isso, a indiada estava firme na canha do fim-de-dia. A rapariga, embora china embuchada, era bonitaça. A homarada se virou para especular, enquanto ela perguntava ao dono do bochinche onde podia encontrar pousada que o piá estava querendo olhar a querência pelo lado de fora.

O bagual coçou a cabeça dizendo que não tinha acomodação, mas a umas quadras dali ficava a Estância da Ramada, gente boa que só ela, haviam de lhe dar guarida. “Acha que aguenta o piazito até lá?”

Há de agüentar, assegurou a mãe, pois se não tem outro jeito, arreglado está.

Tocou-se a passito que os sacolejos do cavalo lhe provocavam repuxos imediatos.

Apeou para abrir a porteira e segurou-se um pouco no moirão da cerca. A alameda que levava à fazenda era ladeada por tarumãs antigos, provocava medo aquele corredor escurecido pela galharia, mas impunha-se atravessá-lo. Se foi de manso, a segurar a barriga como se pudesse impedir o nascimento soflagrante.

Não chegara à casa grande e já o capataz vinha encontrá-la num zaino guapo. Marilena foi pedindo pousada, explicando o parto eminente e mostrando o rocim em que vinha.

− Minha dona, bem que lhe queria fazer os préstimos, mas nem o patrão, nem a patroa estão na moradia, foram para cidade passar o Natal com os filhos. – Esclareceu o homem.

Abombada, não se agüentando mais, a chinoca se desacorçoou, grossas lágrimas rolaram enquanto puxava as rédeas a retomar o trilho por donde viera.

Mais três quilômetros e tu encontrarás a Estância do Caverá, te dão guarida. Ouviu, nas costas, a indicação.

Tocou a montaria na precisão, já ia tironeada das idéias, era chão a não se acabar nessa emergência. O frio entrava pelo poncho, a gelar-lhe os ossos. Era breu, o céu e o suspiro da noite molhava-lhe os cabelos. Nossa Senhora do Bom Parto, me dá uma boa hora, pedia, desesperada, uma taperita qualquer onde eu possa apear de vez, uma alma que não seja maleva prá recolher meu rebento.

De longe, enxergou as luzes e a esperança voltou a seu coração. Ai, que me emendo, minha Nossa Senhora, saio da vida, crio raiz e amagava em cima do pingo como se isso o adiantasse.

As luzes vinham do galpão de onde desencantava um som de acordeona bonito de se ouvir, difícil de prestar atenção nesse momento. A casa tinha todas as janelas fechadas, alguns fiapos de luzeiro escapavam das venezianas. Escolheu o galpão para apresentar-se.

− Buenas, estou procurando asilo, para mim e para cria que já está apontando.

O chiru tirou devagar o pito da boca, empurrou para traz o chapéu, largou a acordeona encastada num tripé brilhoso de uso. Era certo que esses movimentos, muito lentos, lhe permitiam avaliar a chinoca e pensar numa resposta.

A mulher vestia uma chita muito da molambenta, umas botas masculinas maiores do que os pés que guarneciam e o poncho estava esticado pelo tamanho da barriga. Era china, se via de longe.

− Cuê-pucha! Como que vem embarrigada desse jeito!? Há de gunir um pocado, minha prenda.

− Ai, senhor, não havia maneira de ficar naqueles pagos, a dona do arranchado que eu servia, não fica com piá guaxo, entrega tudo para o padre. Sou china por percisão, apertei a cincha o quanto deu para não mostrar a cria. Solita passei na treva da espera, depois não deu mais. Não havia recau que segurasse o guri. Dei com os costados na rua. Eu fiz por gosto, pelo homem, vou parir e vou criar. Me ajude, senhor, só um canto para largar o corpo, uma mão para aparar.

O chiru mediu o bucho, viu a cria despontando como vaca no pasto, era haragano, mas não era jerivá. A dor do sangue do Rio Grande bateu nele e as peleias se insurgiram, pois que venha, se arresolveu.

− Pois comigo morocha não fica no desprotejo, assunto tu e a cria. Vou encilhar meu cavalo que o teu não serve nem para mais uma quadra. Está estropiado. E me chame José.

Pegou a china pelo braço para que apeasse. Chamou a peonada a arreglar pouso. Os gaúchos se olharam, entrecoçaram as pernas na bombacha solta e se puseram a serviço.

− Meu nome é Marilena, mas pode me chamar Maria como todo mundo faz.

Saíram montados no mesmo animal, passaram por detrás da casa grande esparramada no meio do terreiro e perderam-se na noite do campo através do assobio do vento nesses dezembros que às vezes assolam o Rio Grande. Depois de meia hora, já em pleno pasto, avistaram uma choupana onde os homens já tinham alumiado o fogo. Apearam.

José prendeu o cavalo e abriu a porta sem trinco. Lá dentro os peões aguardavam trovando. Tenho mulher pronta para dar cria, foi avisando José com cenho franzido, a mão no relho trançado que pendia ao lado do facão, a traíra presa na cinta. Os empregados, conhecedores da severidade do capataz, apertaram os ponchos ao corpo e postaram-se em guarda ao redor da casa coberta de quincha. Falavam baixo e não levantaram os olhos para assuntar a dona que se enfiava às pressas na salvação.

Amontoada e já afofada num canto uma porção de palha cheirando a mofo, esperava.

− Se ajeite moça que é por aqui mesmo o nascedouro. – Tirou o poncho e estendeu por cima da cama improvisada mais para bicho do que para gente.

Maria deitou-se gemendo, as pernas apertadas para segurar a cria e as dores agudas do parto em ferroadas.

− De buraco apertado não sai Bem-te-vi. Afrouxa dona. Minhas mãos são de vaqueano e nessa hora lhe hão de servir.

Viram-se os dois a forcejar para trazer ao mundo mais um filho de Deus.

O piá berrou estapiado no recavem.

−É gadelhudo o Chico, Maria, gadelhas negras como as suas. – José sorria, a sisudez de gaudério se perdendo diante do choro de recém-nascido. Com peito já incendiado falou mais para si mesmo:

− Pois não há de ver que é diferente de ver vaca e égua nascendo? É filho de gente.

Correu ao cavalo e trouxe um pala para enrolar o pimpão.

Maria segurou o filho, beijou-o enquanto colocava no seio a boca buscadeira.

Os homens à espera entraram, o choro fora o sinal da permissão, os chapéus rodando nas mãos duras. Agacharam-se olhando mãe e filho como quem olha santinho bento. Por trás, José fiscalizava os modos dos bagual.

Um se levantou e disse muito solene:

− O menino vai crescer, precisará de defesa. Dou meu punhal de empunhadura de prata. Muito lhe há de servir.

O segundo chirú não se fez de rogado, tirou a guaiaca e depositou diante de Maria:

− Dinheiro ele há de percisar, dou lugar para ter onde guardar.

O terceiro se levantou e meio envergonhado declarou:

− De valor nada tenho: nem punhal, nem guaiaca, mas colhi essas macelas que hão de perfumar. − Largou as flores douradas ainda com aroma da frescura da terra gaúcha, seu brio e suas lutas.

− Como há de se chamar o guri? Já basta que não tenha pai, nome há de ter. − Atreveu-se o primeiro.

− Tome tenência. − rugiu José.− Acha que sou algum alarife? Estou amansionado. É meu guri, para o que der e vier, trouxe o guri pro mundo, o filho é meu.

Maria olhou o homem, o filho e pensou na Virgem e na promessa que fizera no caminho.

− Pois se o pai se agradar se chamará Gesuíno.

Lá no céu, acima de tudo, a luzeira cintilou.

Vana Comissoli

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2 respostas para Menino Jesus Gaudério (Vana Comissoli)

  1. inacio.carreira@gmail.com disse:

    Paz na terra aos escritores (aí incluídas as escritoras, claro) de Boa Vontade!
    Somente alguém parideira como tu, e gaúcha até o cerne, poderia trazer à luz, nesta Dia Feliz, este Gesuíno, filho de Maria e de um outro bom José.
    Beijos emocionados.

  2. inacio.carreira@gmail.com disse:

    Paz na Terra aos Escritores (aí incluídas as escritoras, claro) de Boa Vontade!
    Somente alguém parideira como tu, e gaúcha até o cerne, poderia trazer à luz, neste Dia Feliz, este Gesuíno, filho de Maria e de um outro bom José.
    Beijos emocionados.

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