A Grande Enchente (Fernando Bastos)

Os filhos e filhas do casal original se uniram sexualmente entre si, bem como com estrangeiros que encontravam em suas andanças, na busca por alimento e sobrevivência. Um homem podia ter muitas mulheres, e a mulher, muitos homens. A monogamia levaria tempo para ser imposta. E o incesto ainda não era uma contravenção.

Com o aumento da população, grassava a onda de violência entre                                        os filhos da terra.  Foi necessária a implantação de leis, para conter as iniquidades e salvaguardar a paz e prosperidade.

Apesar dos esforços da classe sacerdotal, homens especiais que sabiam o que os deuses queriam, a desordem continuava a prosperar pelas hordas humanas. Javé, apenas mais um deus entre tantos, mas que acreditava ser o maior dentre todos, deliberou exterminar a vida na terra, pois andava aborrecido com certos comportamentos de seus filhos.

O diabo o interpelou, Ora, depois de tanto trabalho, decide matar seus filhos, assim, sem mais nem menos? Não eliminarei a todos, respondeu o Senhor, Preservarei a vida de um homem, o único justo e íntegro, que me honra com sacrifícios e orações. Quem é ele, perguntou Satã. Seu nome é Noé, respondeu o Todo Poderoso. Pouparei a vida dele, bem como a de seus familiares; todavia, o resto da Humanidade perecerá numa grande enchente, juntamente com tudo que respira sob o sol.

O diabo coçou o queixo e perguntou maliciosamente, E os bebês e as crianças inocentes, o que vai fazer delas? O Senhor pigarreou duas vezes, pensou um momento e disse, Morrerão pela culpa de seus pais. Vendo que não podia nada fazer para impedir tão horrível decisão, o diabo retirou-se pensando, Quem é mesmo o demônio nessa história?

Instruído pelo Altíssimo, Noé construiu um grande barco de madeira resinosa, untada com betume por dentro e por fora. Após dias de intenso e árduo trabalho, Noé entrou na arca, carregando com ele família, e casais de animais, macho e fêmea de quadrúpedes, répteis e aves, conforme solicitação do Senhor. Abasteceu o barco com as provisões necessárias, e aguardou pelos primeiros pingos de chuva. Obviamente que ouviu muitos gracejos dos vizinhos quando da construção da Arca. Um deles perguntou,Vai virar pescador, Noé? Está fugindo do quê, homem? Não poucos o chamaram de louco, porque não acreditavam que a enchente tomaria proporções tão gigantescas, quanto a que apregoava o construtor do barco.

E eis que os trovões ribombaram ensurdecedores. Os relâmpagos se desprendiam da abóbada celeste, feito flechas lançadas pelos arqueiros de um poderoso exército. O céu tornou-se acinzentado, e fortes ventos prenunciaram a tempestade.

As águas caíram dos céus ininterruptas por 40 dias e 40 noites, conforme havia sido anunciado. Um pandemônio se formou entre as hordas que permaneceram em terra, cada um procurava salvar o que lhe tinha de mais valor, tentando alcançar os lugares mais altos. Sob o violento temporal, as mães arrastavam as crianças menores pelos braços; outras traziam os bebês ao colo, que berravam sem parar. As grávidas corriam com dificuldade, segurando barrigas sacolejantes, protegendo em vão aqueles que jamais viriam a luz do sol. Os homens enxotavam as ovelhas e os bois para os montes mais próximos; os cães seguiam seus donos, com latidos ensandecidos. Uma velha decrépita foi deixada para trás, um homem de muletas tropeçou e ninguém veio para ajudá-lo a se reerguer. No fim da tarde, corpos humanos boiavam misturados a animais e galhos de árvores engolidos pela fúria das águas.

Entrementes, a grande nau singrava triunfante com os únicos sobreviventes do dilúvio. Tudo que havia sobre a terra ficara submerso. E a terra ficou nesse estado por cento e cinquenta dias. Um grande sopro desceu e afastou as águas. Já era possível vislumbrar os cumes das montanhas. Noé soltou uma pomba, que voou por algumas horas, e retornou ao barco, pois não havia local seco para pousar. Após sete dias, soltou-a novamente, e eis que a ave retorna trazendo uma folha de oliveira verde ao bico. O pequeno grupo humano refestelou-se com a boa nova; era sinal de que as águas haviam baixado. Noutra semana, soltaram a pomba mais uma vez e, encontrando lugar para pousar, não retornou mais.

Deus estava pensativo. O diabo o encontrou sentado sobre uma pedra plana, no monte Sinai, local que escolhia para meditar, e perguntou, O que pretende fazer agora? Vai deixar a raça humana em paz, e deixá-la aprender com os próprios erros ou vai castigá-la muitas vezes ainda? O Senhor respondeu, Nunca mais amaldiçoarei o gênero humano, pois os homens são maus desde a infância. O diabo provocou, Mas, quem os criou, não foi você? Sim, fui eu, disse Deus. Satã indagou ainda, Quer dizer que admite não ter feito um bom trabalho? Sim, concordou o Senhor, Não fiz um bom trabalho. Portanto, concluiu o demônio, há um único culpado nisso tudo, e não é o homem. Deus respondeu, Não me condene pelos erros humanos; quando os criei, dei-lhes o “livre arbítrio”, para decidirem entre o Bem e o Mal. Mas tanto eu e você, argumentou o capeta, sabíamos que o Homem tem tendência para o pecado, e esse livre arbítrio não funciona na prática, não passa de uma falácia. Se você dá liberdade a alguém para escolher entre amá-lo ou desprezá-lo, mas o castiga se ele decidir pela opção que não esperava dele, isso se chama coação, mas não liberdade de escolha. Na verdade, o ser humano é obrigado terminantemente a adorá-lo, sob ameaça de sofrimento eterno. Você me parece um marido ciumento que diz à esposa que ela pode sair com as amigas, mas se olhar para algum outro homem irá enchê-la de pancadas. Um pai que ama seu filho irá fazer de tudo para que o filho o ame, sem constrangimento e ameaças de uma possível punição. Você, Javé, que se acha deus, poderia copiar o exemplo.

O Magnânimo ficou vermelho de raiva; não esperava ser confrontado dessa maneira. Rodou nos calcanhares e desapareceu, deixando o diabo com um riso mordaz nos lábios. 

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2 respostas para A Grande Enchente (Fernando Bastos)

  1. Vana disse:

    Historinha sobre Deus feita por humanos que adoram tirar o seu da estaca e por a responsabiliadade em cima Dele que não está nem aí para estas falácias.
    Foi assim que o diabo sussurrou no meu ouvido.

    • Oi Vana, lendo a bíblia, eu fico com pena de Deus, pois o colocaram em muita saia justa. fizeram dele um ser chefe de exército, que manda matar criancinhas de colo só porque seus pais tinham seus próprios deuses para adorar e Javé não queria concorrência.

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