Memórias de um professor aposentado (Fernando Bastos)

Certa vez, quando eu contava com meus cinquenta anos; lá se vão mais de duas décadas, e dava aula de Filosofia na Universidade F…, percebi que uma garota que sempre tivera participação ativa nas aulas, começara a faltar com frequência. Aqui vou chamá-la de Maria, para proteger sua identidade. Maria tinha 22 anos, e fui saber que estava depressiva e andava se entupindo de calmantes. A mãe a levara a um psiquiatra e ele prescreveu os devidos medicamentos. Naquele ano ela não voltou a estudar. Foi se tornando escrava dos remédios e não saía mais de casa. Nem banho tomava. Fiquei sabendo de tudo isso na festa de aniversário de uma amiga dela do curso que eu ministrava. Ela mesma me contou, quando me encontrou sozinho tomando meu uísque na varanda da casa. Era a primeira vez em um ano e meio que ela saía de casa. Estava irreconhecível, bem mais magra, uma palidez de papel na pele e com um olhar de zumbi. No entanto, conservava ainda aquela beleza jovial de uma personagem de um quadro de Botticelli. Foi levada à força pelas primas a tal festa. Para meu espanto, ao me ver, ela abriu um sorriso e me cumprimentou:
– Oi professor, como vai?
– Oi, guria, respondi, Que bom te ver. E tu, como vais?
Em uma hora de conversa ela me falou da sua infância, da rígida educação de base católica em casa, das múltiplas recomendações a se manter afastada dos garotos, que “só pensam em transar com as meninas”, do exagerado cuidado de seus pais para que não namorasse antes de se formar na faculdade. Com uma sinceridade invejável, Maria me contou que entrou em depressão porque não podia namorar, queria fazer sexo e os pais a cerceavam vinte e quatro horas por dia. Com vinte e dois anos, ainda era virgem! Disse a ela que ser virgem naquela idade não era comum, mas também não era nenhum fim do mundo. Que ela não devia se preocupar com isso, mas sim, com sua saúde e bem estar. Não foi difícil notar que todo o problema dela, sua apatia pela vida era em função da perda de liberdade, sobretudo pelo direito em extravasar sua sexualidade reprimida. Convidei-a para uma noite de amor, e, juro a vocês, não me surpreendi quando ela aceitou. Saímos à francesa, e fomos direto ao meu apartamento. Naqueles tempos eu era um coroa desejável, estava com o corpinho em dia, pegava onda na Joaquina ao lado de campeões, de forma que não fiz feio. Quando tiramos a roupa, fiz apenas um pedido. O quê, ela perguntou. Não terá penetração, respondi. Por quê, disse ela, esperando que seria desvirginada naquela noite. O senhor não me achou atraente, estou tão feia assim? Não é isso, respondi. E, por favor, não me chames de senhor. Está bem, disse ela com um sorriso meigo, desculpa. Tu és bela, eu disse, e sinto-me envaidecido por tua confiança em mim. Porém, o que tem de menos importante hoje é tu perderes a virgindade. E a beijei. Não dei tempo para ela falar. Beijei-a com centenas de beijos, desde os lindos pés até a as pontas dos cabelos. Ela chegou ao orgasmo pelo menos quatro vezes. Minha língua estava afiada aquela noite, e meus dedos habilidosos. Exausta, ela me agradeceu, Obrigada professor, nunca imaginei que sexo fosse tão bom. E ainda sou virgem! Abracei-a e disse, Não tenhas pressa. Quando te sentires pronta, aí sim será o momento. Na segunda-feira ela voltou ao curso. “Milagrosamente”, no dia seguinte ao nosso encontro, ela largou de vez os antidepressivos.

Fernando Bastos, cartunista e escritor

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