Inverno, infirmo, inferno (Inacio Carreira)

O frio é incomum. Passa as tardes ao lado de um aquecedor cujo uso fará, no próximo mês, a delícia dos acionistas da companhia de energia elétrica. As manhãs passa-as na cama, sob uma grossa camada de cobertores, edredons, mantas, lençóis e outros artifícios /artefatos contra baixas temperaturas

Há mais de 20 anos, quando saiu de sua cidade para esta, em outro estado, preparou-se como para uma viagem ao Ártico (exagero, exagero), mas perdeu o investimento. O sítio mostrou-se cada vez mais quente, ele parou de fumar, engordou e as roupas foram para um amigo. Eram boas, quentes, mas não serviriam de nada, agora. A numeração passou de 48 para 54 (dependendo da fábrica). Devia utilizar-se de náilons e outros sintéticos ao invés da velha e boa lã, casimiras, flanelas, malhas flaneladas, veludos, couros… Ainda tem muita coisa a usar, mas carecem de cuidados, de lavações, de banhos de sol que lhes tirem os ácaros, os cheiros de naftalina, os ovos de barata. Resistentes, essas baratas. Fazem, da naftalina, desodorante. Continuam, perfumadas, o banquete em minhas roupas e agasalhos que, descobertos, ganham o caminho da rua, do lixo.

O frio é incomum. Existe uma vantagem: as comidas estragam menos. Estragando menos, também tem que cozinhar menos. Pilota o fogão, no máximo, duas vezes na semana. Guarda as sobras, aproveita-as bem, come fora vez em quando, às suas expensas ou convidado por amigos, vez em quando trazendo uma sobra para casa. Ainda agora tem, glória das glórias, camarão com molho rosé e maçãs no congelador, prato que degustou, de prima, à beira-mar em Itajaí, num restaurante chamado Sereia Tropical.

Outra vez, almoçando na própria cidade com uma amiga turista, levou para a geladeira um linguado ao molho branco com alcaparras, mas, quando quis utilizá-lo, estava virado em aguarela. Intragável. O molho branco se desmanchou, do peixe só sentiu o cheiro forte. O conjunto ganhou a lata de lixo e, ato contínuo, a lixeira comum do condomínio, não fosse ficar no apartamento atraindo moscas.

O frio é incomum. Ele, lamentando, falou de roupas, que esquentam por fora e de comidas, que esquentam por dentro. Mas encontra-se num impasse: nem as roupas nem os mantimentos, transformados em calorias, gorduras e vitaminas, podem ajudá-lo na atividade que enfrentará a pouco: o banho. Não, não irá colocar o aquecedor no banheiro. É contra-indicado, o fabricante informa que o mesmo não deve ser ligado em áreas molhadas. O que resta é o velho truque – perigosíssimo – de colocar fogo ao álcool, colocado em uma lata. Não fique preocupado, não. O banheiro, ou a sala de banhos, tem abertura suficiente para não asfixiar o usuário. Aliás, abertura perene, pois a janela não fecha, a ferrugem impede o acionamento da alavanca que vedaria o espaço.

Sofre duas vezes: no frio, agora incomum, tudo é pouco para aquecer o ambiente e a água. No calor, às vezes mesmo desligando o interruptor do chuveiro a água é tão quente (pela proximidade da caixa d´água com o telhado) que quase não aguenta a temperatura elevada. Isto faz com que cada banho hibernal exija uma reflexão, um buscar roupas no cesto e nas gavetas, acomodando-as no banheiro para uso imediatamente após secar-se; um planejamento estratégico para não deixar a embalagem de álcool perto do fogo, não deixar os fósforos perto do fogo, a toalha idem, sua pele mais cuidada ainda.

Como seria bom assinar, como suas, as afirmações acima. As queixas acima. As dúvidas. Mar aberto, fica à mercê de cuidadores, sem sentir frio ou calor, lembrando de quando tinha estes felizes desconfortos. Precisa entrar um pouco mais mar adentro, afundar, sumir, integrar-se ao grande nada. Com qualquer temperatura.

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