Sensibilidade (Marcelo Lamas)

 

Procurei meu médico de confiança para fazer uns exames de rotina e ele sugeriu um macete:

– Faça o check-up anual bem no mês do seu aniversário, assim ‘você se dá de presente’ os exames e também fica mais difícil de esquecê-los.

No meio da boa conversa, sim, eu achei um médico que conversa com o paciente, ele mediu minha pressão e disse: “Esse negócio de medir a pressão no consultório nem sempre dá certo. Às vezes o paciente fica nervoso, ansioso com o resultado e sempre aparece um valor mais alto do que deveria ser. Nós chamamos de síndrome do jaleco branco”. E continuou:

– É o mesmo efeito que acontece quando o carro tem um barulho. Chegando ao mecânico o barulho desaparece.

Depois, dando uma olhada na ficha médica, toda manuscrita a lápis, e prescrevendo alguns exames, ele concluiu:

– Na tua idade esses exames aqui são suficientes. Depois dos quarenta o corpo vai começar a mandar uns sinais da idade, mas a coisa pega mesmo é depois dos cinquenta. Aí tudo começa a ficar mais sensível, começa a doer aqui, doer ali.

Quando ele falou em sensibilidade, lembrei da minha falta de sintonia com os sapatos. Todo calçado me incomoda. Antes qualquer pisante servia, fazendo jus ao provérbio popular: “Pé de pobre não tem número”. Agora, até os tênis com amortecimento me causam desconforto.

Será que estou envelhecendo precocemente?

Passei a ficar mais preocupado com isso, quando recebi o telefonema de um colega da empresa:

– Marcelo, queres jogar um campeonato de futsal. Vamos participar da categoria de veteranos, topas?

Em contrapartida, enquanto participava do Festival Nacional do Conto, uma colega literata, que eu não via há algum tempo, me disse:

– Como estás jovem! Fizeste plástica?

Fiquei confuso, mas logo lembrei do que o professor tinha dito no início daquela tarde:

– Vocês são um bando de loucos. Com o final de semana assim, com esse sol lindo e céu azul – evento climático raríssimo em Jaraguá do Sul – vocês aqui encerrados num auditório, discutindo literatura?

E tudo voltou ao seu lugar na minha mente.

  

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

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2 respostas para Sensibilidade (Marcelo Lamas)

  1. Vana disse:

    Uma crônica extremamente visual que, nas entrelinhas, nos traz uma realidade universal. Muito legal!

  2. Ah a idade.
    Apesar dos meus vinte e poucos ando me sentindo velho.
    Não me identifico com meus pares, meus melhores amigos beiram os quarenta, já plantei minha árvore e fiz nascer minha filha, estou trabalhando com ex-alunos e pior, dando aulas para filhos de ex-alunos!
    E com a idade a sensibilidade anda a flor da pele…

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