Águas Doces (Suzi Daiane)

Na época em que os rios eram límpidos e que passar a tarde pescando às margens dos pequenos córregos era a diversão de muitas famílias, os barcos eram feitos de papel e corriam desleixadamente pelas águas doces. Nesses barcos viviam piratas, que não desistiam mesmo diante das mais fortes tempestades, enfrentavam as correntezas até o secar da última gota de sangue em suas veias.

As tempestades sempre existiram, nunca se soube a origem verdadeira delas; se algum gigante as criara para reafirmar seu poder com os trovões, ou se o dono dos céus decidira as enviar para testar quão bravos os piratas poderiam ser. O certo é que os piratas em momento algum davam chance para a fraqueza ou medo, sabiam que suas vidas eram sustentadas por uma base frágil, como muitas vidas o são, e faziam por merecer os dias de liberdade com nuvens claras do céu.

Certa vez, quando atracavam nas águas quentes do rio, foram pegos de surpresa por entulhos, metais e pedaços de plásticos que sujavam as águas e carregavam os barcos para lugares perigosos. Muitos dos barcos foram arrastados para longe, os materiais presos a eles faziam com que afundassem depressa. A esperança parecia dissolver-se. A água veio a encher por completo diversos barcos, que afundaram, levando consigo fiéis piratas.

Restava somente um barco naquela tragédia, até que pedaços de alumínio cortaram sua parte inferior e a água fluíra por dentro do convés. Os piratas viam-se ameaçados. As águas entraram com pressa, trazendo um colorido desconhecido e um odor insuportável que os fazia desmaiar.

O capitão ainda dava ordens, parecia não perceber a gravidade, e só cessou os gritos quando finalmente o barco pareceu velejar de maneira amena. Os piratas abraçaram-se procurando estancar com o próprio corpo as entradas de água. Não houve o que se fizesse parar, o barco afundou logo após bater em uma enorme pedra escondida nas encostas.

Foram tempos difíceis aqueles, todos os barcos e sonhos foram destruídos, milhares de peixes foram encontrados sem vida na beira do rio e piratas desapareceram por todo o sempre.

Muitas famílias ficaram doentes, e, aos poucos, também se esvaíram das proximidades do rio, o líquido que vertia das nascentes se uniu às novas cores e, os poucos moradores que restaram, adaptaram-se à escassez da água límpida. Agora eram conhecedores do sabor de outro líquido, quase um óleo, que tinha qualquer outra aparência e consistência, mas que ainda era chamado de água.

Os piratas de água doce passaram a existir somente nas lembranças. Nas histórias contadas sobre eles, são sempre descritos com uma aparência estranha, muitos sem algumas partes do corpo. Talvez porque realmente as tenham perdido graças aos entulhos; talvez para que assim ninguém se esqueça da bravura de seus corações.

Suzi Daiane é atriz e professora.
Co-autora no livro “Preliminares” e autora do livro “Tonalidades”.

Anúncios
Esse post foi publicado em Prosa e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Águas Doces (Suzi Daiane)

  1. Tiago disse:

    Não poderia começar de melhor maneira sua participação na nossa cooperativa do que com esse texto.
    Que venha muito mais por aí, seja bem vinda querida Suzi.

O que tens a dizer sobre o post?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s