Na mochila (Marcelo Lamas)

Recém contratado para estágio, fui convidado por dois colegas de trabalho para uma pescaria.
Eu estava com a “síndrome do invisível”, achava que ninguém me via trabalhando. Todo iniciante tem esse sentimento num novo emprego. Quando me chamaram, pensei: “Legal, os caras me convidaram”!
Na véspera, perguntei sobre o que levar para o passeio. Eu estava interessado – mesmo! – no cardápio, que era bem sugestivo.
Meu paladar rejeita quaisquer frutos do mar, inclusive camarão, o que surpreende muita gente.
Mas como eu não queria ser infiel à consideração do convite, não comentei nada. Arrumei a mochila e fui com os companheiros.
Eles sugeriram que eu tomasse um comprimido para evitar enjôo na navegação. Depois que ingeri, lembrei do alerta da minha mãe, que dizia para não aceitar nada de estranhos. Poderia ser algum entorpecente e eu mal conhecia os sujeitos direito.
O fato é que não senti nada no trajeto, até hoje não sei se foi a prevenção com o remédio ou firmeza do meu organismo.
Depois de meia hora de barco, chegamos ao lugar deserto. Eles levaram sal, grelha, carvão, espetos, cervejas e Coca-Cola.
Ah! Eu tive que ajudar a pagar o aluguel da embarcação, o que para um estagiário é um atentado financeiro, pois provoca greve de fome forçada no fim do mês.
Os parceiros eram bem profissionais, tinham roupa de neoprene, máscaras e equipamento sofisticado.
O dia foi passando e eles usando técnicas diferenciadas, as quais me explicavam detalhadamente. Acho que os peixes que circundavam a ilha conheciam os truques, pois já estávamos no final de tarde e nenhum aquático capturado.
Depois daquela pescaria, aqueles dois colegas de expediente viraram grandes amigos meus e também fiquei com fama de estrategista, pois ainda na ilha, a fome da dupla especializada e a minha acabou quando abri a mochila e tirei um cacho exagerado de bananas que eu tinha levado camufladamente enrolado numa toalha de banho, pois peixe eu não ia comer.
No final daquele mês, revezei jantares nas casas deles até receber meu auxílio sobrevivência, digo, salário de estagiário.
Ainda bem que em nenhuma noite teve pescado no cardápio.

Crônica publicada originalmente na Revista Banana D’Água – Edição 02

Marcelo Lamas
Engenheiro Eletricista, professor universitário, escreve artigos e crônicas para jornais, revistas, sites e livros há 13 anos.
marcelolamas@globo.com

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