Sobrevivente (Inacio Carreira)

Lembrava de nada. Um vazio na cabeça, parecendo desmiolado, mas era falta de memória mesmo. Mau contato nas sinapses. Zinabrou, diriam os antigos. Curto circuito. O clarão… O clarão! O clarão e um estrondo ensurdecedor toldaram-lhe os sentidos. Deve ter sido isto, então. Um lampejo de consciência, tirada não sabe de onde, fez com que refletisse. Onde estão todos? Onde estava com todos? Quem seriam esses todos?

A luz é difusa, confusa… Muitas sombras formam grandes áreas que não consegue vislumbrar. Não distingue quase nada. Nada, nada, nada… Como repete esta palavra. Como definir o nada, descrever o nada, pensar o tudo em presença do nada? Longe ou perto? Raso ou fundo? Suave ou agudo? Reto ou redondo? Firme ou movediço? Só dúvidas, dúvidas…

Louco não está ou, seguindo vaga e remotíssima lembrança, acharia tudo 10. Vinte. Mil.

Parece postado contra um encosto de pedras áspero, frio. Dor nas costas, as pernas teimam em não obedecer. Nem os braços. Sente-se uma coisa grudada à pedra. Mas não. Não? E se fosse? Que coisa seria? Uma lesma, perereca, indivíduo em uma colônia de fungos, uma ameba? Viagem, viagens… Pareceria com o ser que Kafka, em A Metamorfose, deixa que percebamos como uma barata? Bem, ele não deixa nada, a maior parte das pessoas é que veem o ser como uma barata. Que pode ser real ou metafórica, dependendo do entendimento de cada um. Ao menos estaria “barateando” por aí, andando, meio que rastejando, sentindo o ambiente com as longas antenas. Menos, menos…

Não se sentia metamorfoseado, apenas dormente. Uma dormência gostosa, como ao acordar de um sono reparador e o sangue, seguindo os impulsos vegetativos, começasse a ser bombeado com mais pressão para o organismo, oxigenando o cérebro e todo o sistema. Vivificando.

Era bonito o mundo apesar da poluição que às vezes o escondia:

Tinha sol, e crianças sorrindo para ele, e mulheres com tangas escondendo quase nada,

E barcos que se faziam ao mar: faziam até músicas, compunham-se poemas,

Falava-se de amor que, embora às vezes pago, era bom…

 Era bonito o mundo: as gentes se encontravam pela rua, ao que, às vezes,

Davam o nome de “trombada” (seriam eles como elefantes?);

E se fazia comercial até para vender o óbvio.

 Era bonito o mundo e hoje, tantos sóis quase nada iluminando a Terra.

Era bonito o mundo, antes do fim…

Como um bebê principiando o explorar do ambiente, tentou mexer os dedos. Conseguiu! Quase festa, não fosse a dor. Lancinante. Lacerante. Cortante. Num esforço sobre-humano, elevou a mão esquerda para perto dos olhos, enquanto buscava aproximar o conjunto da luz. Estava no lugar. Ou melhor, o que sobrara dela estava no lugar, na ponta do braço, com as enervações ligando seus trocentos ossos (exagero, na verdade são 17, lembrou). A pele… Ai, a pele… Meu reino por um antisséptico e bandagens, ousou pensar, mesmo sabendo do surreal da situação. Com o outro braço e respectiva mão o trabalho foi o mesmo, a dor foi a mesma, a expectativa foi menor. Sabendo das condições, embora precárias, de seus membros superiores, pensou em levantar-se. Não sem antes testar a movimentação das pernas. Somente testar, porque não conseguia vislumbrar nem silhueta das mesmas… Aparentemente estão em ordem. Agora sim. Como a alavanca de Arquimedes (eita, desde sempre acontece empulhação: Arquimedes não inventou a alavanca, mas explicou o princípio envolvido no processo de alavancagem), usa a perfeita combinação de ossos, músculos e nervos para tentar levantar. Não é fácil. São ativados os músculos tibial anterior, sóleo, gastrocnêmio, quadríceps, isquiotibiais, glúteo máximo, abdominais, paravertebral lombar, trapézio e esternocleidomastóideo… Ué, de onde apareceu tanta informação? Nunca foi atento nas aulas de Ciências, Biologia e congêneres. Inconsciente coletivo, diria Jung. Inconsciente talvez, ele estava morre-não morre, a vontade de continuar deitado entorpecia os membros, embora deles precisasse para voltar à condição de primata. Como estava, grudado à pedra, faria parte dos répteis? Dos batráquios? Das assombrações?

Era bonito o mundo antes do fim. Aparecem no fundo de sua memória, borradas, enevoadas, as visões do terremoto / tsunami / vazamento nuclear que prenunciou o final dos tempos. Final dos tempos ou início de uma nova era? Pois, não fosse assim, ele não estaria agora ruminando sua desdita e ouvindo, ao longe, sons de civilização, o famoso ruído branco que deu nome ao livro de Don Delillo. Ruído branco. “Som sempre presente do tráfego da autoestrada” ou “almas … balbuciando nas margens de um sonho”?

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Uma resposta para Sobrevivente (Inacio Carreira)

  1. Vana disse:

    “Era bonito o mundo antes do fim.” Fiquei grudada nesta frase vendo o fim bonito que mostras como uma labareda tsunâmica de esperança, de recomeço. Tua alma, que sei branca, revelando possibilidades, fim jamais fechado, sempre quem sabe um passo mais?
    Impossível não pensar em teu conto, impossível não ser jogado à quilômetros de distância de uma perimetral brasileira atolada.
    Impossível não pensar que o impossível é possível, depois de 1 passo.
    Bjs

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