Ah, o amor (Fernando Bastos)

Ah, o amor!

Quantos disparates em torno dele. Filósofos, poetas, amantes e cientistas, todos tentam decifrá-lo. O escritor Gustave Flaubert tem uma preciosa descrição do amor em seu livro Madame Bovary, conforme o pensamento da personagem principal:

“O amor devia surgir de repente,
com grande tumulto e fulgurações – tempestade dos céus que cai
sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e
arrebata para o abismo o coração inteiro.”

Mas isso não creio que ainda é amor, mas paixão, você concorda?
Muitos, com efeito, fazem confusão entre paixão e amor. A paixão segundo os cientistas tem prazo de validade, dura no máximo uns dezoito meses. O amor do qual eu falo, é para a vida toda. Já o amor romântico, do jeito que conhecemos hoje, esse que envolve casais, e os entorpece como se tivessem sob efeito do ópio é coisa recente na história humana, que veio a reboque do amor cortês, surgido no ocidente, no século doze da era comum. Poetas trovadores – na Alemanha chamados “minnesingers”, cantores do amor – cantavam nas tabernas, nas ruas, praças e castelos o amor cortês, aquele amor impossível, do cavaleiro pela dama inalcançável. Era o amor pelo simples prazer de amar. Não importava levar a amada para a cama; antes, seduzi-la e embriagar-se nesse enlevo, e mostrar-se fiel a ela, dando a própria vida por ela, se fosse o caso. Sim, claro que o amor existia bem antes disso, todavia, era diferente, amava-se e ao mesmo tempo desejava-se a posse do corpo, além da alma. Antes do amor cortês, o amor não se realizava sem a consumação carnal. Diferente do amor romântico, que desejava-se a alma, sem se importar com o ato sexual.

Alguns especialistas sugerem que não há o amor pelo outro, mas, o desejo de estar no amor. Amamos o amor, não alguém. Em certa medida, eles estão certos, pois só assim para explicar porque muitos amantes sofrem uma vida ao lado de seu objeto de amor, que o agride e humilha. De fato, muitos amantes oprimidos pelo parceiro nem de longe sonham em terminar a relação, pois não conseguem se imaginar sem esse objeto de amor por mais que ele os machuque. Mesmo infelizes, continuam a não querer se desligar daquele envolvimento amoroso doentio e penoso.

E quando questionados por que não se afastam dele, respondem: “Não posso, pois o amo mais que tudo, e sem ele a vida não teria sentido”. Ama quem? A pessoa ou o “estar-no-amor”? Aqueles que conseguem romper essa corrente que os liga de forma mórbida ao parceiro agressor, poderão experimentar, num futuro não tão distante, se se permitirem uma chance a si mesmos, uma nova vida, muito mais decente e digna, seja ao lado de outra pessoa, em novo romance, ou mesmo sozinhos, pelo tempo que acharem melhor.

O amor puro e verdadeiro existe, mas é raro. Nisso acreditam os sábios que perscrutaram as sutilezas do amor desde a aurora da humanidade. Segundo eles, o amor verdadeiro não aprisiona, liberta. Não deseja possuir o outro, ser dono do outro, e sim, tornar-se parceiro do outro, e vê-lo feliz. Quem ama mesmo, não diz, você é minha ou você é meu, posto que pessoas não são objetos. Quem ama diz: “você é seu, você é sua”. Sua o quê? Sua própria identidade, seu próprio “eu”. Ninguém pode ser você, a não ser você mesmo, bem como é um grande equívoco dizer que fulano ou ciclana me completa. Ninguém pode completá-lo, torná-lo inteiro, a não ser você mesmo.

Fernando Bastos, cartunista e escritor

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Uma resposta para Ah, o amor (Fernando Bastos)

  1. Vana disse:

    Ah o Amor… Este desconhecido.
    A paixão é flecha, o amor é alvo. Ela voa, ele aguarda.
    Poderá um dia se estudar tudo sobre ele? Desvendar este grande mistério?
    Mesmo nós, como dizes, podermos um dia conseguir tal feito?

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