Valentine’s Day (Sônia Pillon)

 Da janela da varanda, o vidro está banhado pela água da chuva. Os pingos escorrem um após o outro, rapidamente, enquanto o céu cinzento, os relâmpagos e os ventos uivantes sacodem as folhas das árvores. Acho que tão cedo não vou esquecer dessa chuvosa tarde de verão. Que coincidência irônica, pensei. O mau tempo parece combinar com o meu estado de espírito, como se solidarizasse com a minha dor, lancinante, dilacerante…

 A água que escorre pela vidraça se confunde com as lágrimas que insistem em cair pelo meu rosto, involuntariamente, por mais que eu as tente reprimir, por mais que eu não queira derramá-las. Chorar para que? Odeio me sentir assim, refém das próprias emoções! Não combina comigo. Não combina com a vida que escolhi para mim.

 Hoje todos estão comemorando o Valentine’s Day, e o meu coração está apertado desde que acordei. O que mais vi foram flores, flores e mais flores, embaladas em belos ramalhetes, ou em vasos enfeitados… Casais apaixonados sorrindo pelas ruas. Um ar de felicidade no ar, acintoso, ferino. Até a minha vizinha da frente recebeu rosas vermelhas. Logo ela, que só pensa em trabalho?! E eu é que tive de receber a entrega!… Não é ironia demais?…

 E pensar que no ano passado, no Valentine’s Day, eu estava transbordando de felicidade ao lado dele, naquele inesquecível jantar à luz de velas, saboreando aquela comidinha chinesa e bebendo aquele vinho rosè, que venceu as minhas últimas resistências… Como esquecer a magia daquela noite, e de tantas outras em que nos entregamos àquela tórrida paixão, esquecendo o mundo ao redor?…

 Ah!… No início, ficava contando as horas, os minutos e os segundos de cada dia, que pareciam intermináveis, até ele tocar a campainha. Bastava um olhar, um toque, e um turbilhão de emoções tomava conta de nossos corpos e de nossas almas… Tudo parecia tão perfeito naquela época!…

 Claro que esse idílio não poderia durar para sempre. Quando a gente se conheceu, e se  envolveu, acreditava que todas as diferenças podiam ser superadas. Mas não é o que todo mundo pensa quando está cego pela paixão?

 Mas logo vieram os ciúmes, as  brigas, as cobranças de um lado e de outro… No começo eu até que tolerava aquele futebol todo o santo domingo. Mas com o tempo ele passou a se ausentar o dia todo. Eu ficava em casa, vendo televisão. Que tédio! Depois ele começou a sair sozinho nos sábados também… Aquele bafo de cerveja quando voltava para casa, sempre bem tarde e super cansado… Estava na cara que tinha mais alguém na jogada… Foi a decisão mais difícil da minha vida, mas não dava mais!…

 A chuva continua caindo lá fora, porém com menos intensidade. Fico olhando distraída o movimento dos carros, enquanto imagens em flashback tomam conta dos meus pensamentos por alguns minutos. Ainda há nuvens no céu, mas lá no fundo já dá para ver o arco-íris se formando. Respiro fundo e solto o ar lentamente. Enxugo as lágrimas e fico admirando as cores do arco-íris. Amanhã acho que vou dar uma passada no shopping. Estou precisando dar uma repaginada no meu visual.

Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.

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4 respostas para Valentine’s Day (Sônia Pillon)

  1. B. disse:

    Ah, o amor! Coisinha complicada de expressar, não? O texto em si está bem escrito e as ideias bem colocadas, mas o conteúdo está fraco. Quer dizer, é quase como aquilo de ”matérias muito bem escritas e histórias muito mal contadas”. As passagens estão todas recheadas com clichês e o título… Ora, estamos no Brasil! De todo modo, parabéns.

  2. Sônia Pillon disse:

    Nossa, B.! Como você é ácido (a)!… Não tenho pretensões de literata, muito menos de concorrer à Academia Brasileira de Letras!… Escrevo com a alma, expresso minha escrita… Se você não gosta do meu estilo, sinto muito… Há gosto para tudo, e espaço para todos, felizmente… E por isso vou continuar a escrever aqui… Em respeito aos que apreciam…
    Aliás, quando poderemos ler os seus textos, B.???… Já publicou algum livro? Já foi aprovada em algum edital?… Gostaria de poder avaliar também o seu trabalho da mesma forma, porque ser crítico (a) é muito fácil… Mas, como você mesmo(a) mencionou, “estamos no Brasil” e aqui todo mundo se acha crítico, treinador de futebol e jornalista, que por sinal é a minha profissão…

  3. Tiago disse:

    Concordo com a posição da Sônia. A maioria dos que aqui escrevem estão iniciando na literatura então é preciso haver respeito.

    E caro (a) B., deixo a porta do blog aberta para as suas publicações também, desde que usando seu nome. Aliás, a partir de agora os comentários anônimos serão proibidos. É salutar em uma democracia que sejam “dados nomes aos bois”. Do contrário, vira bagunça.

  4. Bruna disse:

    Minha intenção de modo algum era ofendê-la, acredite. Ora, eu apenas quis dizer que achei que faltou a essência do texto, se usei termos incovenientes ao fazê-lo, perdoe-me. Era pra ser apenas uma crítica construtiva, mas talvez eu tenha usado um pouco de acidez, acidentalmente. E sobre ”estarmos no Brasil”, eu apenas acho que a partir do momento que usa-se um título em outra língua, empobrece a literatura. Na minha visão, é meio que jogar o que ‘nós’ temos para fora, mas isto fica a par do autor.

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