Hipocondria (Inacio Carreira)

“Dar nome a uma doença é apressar-lhe os avanços.”
Stendhal

Seu pai sempre contava para todos, não sem uma ponta de orgulho, que o primeiro remédio que o filho tomou na vida foi o ácido acetilsalicílico. Talvez por ignorância, talvez por poder, com seu dinheiro suado, ajudar a manter a saúde do rebento, que quase arrebentou a mãe quando nasceu. O que pode, muito bem, ter sido o “pomo da discórdia” entre o casal, que seguiu se alfinetando pelos quase 50 anos que viveram juntos, antes que Tânatos os reunisse num longo sono: cada qual a seu tempo foi dormir, como se acostumaram em vida, talvez um tentando evitar a presença do outro.

Uma das primeiras músicas que chamou sua atenção, diferente das cantigas de roda, das marchinhas de carnaval, das paradas de sucesso extemporâneas, das danças da garrafa e outros tchans foi “O pulso”, de Arnaldo Antunes, ainda no tempo dos Titãs.

“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa…”

A mãe, leitora anual do almanaque O Pensamento, preocupada com a saúde, sua e do rebento, que agora então arrebentava as roupas com o rápido crescimento, arrebentava os chinelos, tamancos, sapatos, parecia o Pé Grande (aliás, apelido que ganhou na rua, fazendo-o ficar irado e chorar como um bezerro desmamado, atrás da porta, porque “homem não chora”), saía vez em quando com pérolas como “O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito” (Émile Zola); “A medicina fez, desde há um século, progressos sem parar, inventando aos milhares doenças novas” (Louis Scutenaire) e Uma grande invenção para humanidade não é criar vacinas ou descobrir curas de doenças termináveis, mas sim, acabar com a ignorância” (Andre Rachel): sabe como é, filosofia de almanaque, literalmente.

“Peste bubônica / Câncer, pneumonia / Raiva, rubéola / Tuberculose e anemia /”

Mas fez, essa filosofia, o jovem rebento arrebentado (caía muito, estava sempre com os joelhos esfolados, parece que excesso de falta de coordenação motora) pensar, cada vez mais, na preservação da vida. Na contrariedade que as doenças causavam. Nas dificuldades advindas de procurar médicos, hospitais, pronto-socorros, injeções, pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, linimentos… E o paradoxo: tem que comer bem para ter saúde, tem que evacuar bem para ter saúde. Mas uma atividade não é o oposto da outra? Se o alimento custa caro, dá trabalho para o preparo, exige mil e uma operações porque, depois, num abrir de nádegas, despejar tudo – ou quase?

“Rancor, cisticercose / Caxumba, difteria / Encefalite, faringite/ Gripe e leucemia…”

Adolescente, ainda acompanhado por seus fantasmas, começou a pedir para a mãe que desse remédio para dormir. O mesmo que ela tomava quando o marido ainda não tinha chegado a casa e ela queria, quando de sua chegada, que a visse dormindo o “sono da morte”.

“E o pulso ainda pulsa / E o pulso ainda pulsa”

Não, onde já se viu um pirralho como você já viciando em remédio? Toma essa maracugina, que o homem da farmácia disse que não tem problema… Estava ele preocupado com vício? Queria era dormir sem lembrar o avô, morto ano passado; das péssimas notas no curso médio (que não estavam na média); das dúvidas sobre as poluções noturnas (ainda não as sabia com esse nome); das ereções na condução, quando lotada… Depois, em casa, o velho jogo do cinco contra um, quando resolvia suas crises existenciais à mão, no horário que devia estar preparando a lição de casa.

“Hepatite, escarlatina / Estupidez, paralisia / Toxoplasmose, sarampo / Esquizofrenia”

Quando, aos 16, começou a trabalhar, estafeta num hotel duas estrelas, sentia dor nas pernas de tanto corre-corre. Às vezes, acompanhada de dor de cabeça. Ou dor nos pés, pelos longos períodos que passava sem sentar-se. A moça da copa arrumava um comprimidinho, que ele completava assaltando a farmacinha da mãe, quando chegava à casa. Para escapar da dor de corno, pior que a de cabeça, dá-lhe analgésico. Desenvolvera tolerância medicamentosa à substância e, em vez de um, tomava dois, três comprimidos, dependendo se aquela que pensava ser a pior dor do mundo fosse acompanhada da não menos famosa “dor de cotovelo”, ambas sem referência na farmacopeia internacional.

“Úlcera, trombose / Coqueluche, hipocondria / Sífilis, ciúmes / Asma, cleptomania…”

Aos 18 anos, primeiro emprego sério após a dispensa do serviço militar, quando entrou no centro de educação de jovens e adultos para complementar o estudo médio e, quem sabe, candidatar-se a uma vaga no curso superior (teria que pagar, pois não tinha a sorte de ser diferente, era o mais comum dos comuns dos jovens. Nada que o colocasse na lista das benesses do governo populista, mais preocupado com perpetuar-se no poder do que em fomentar a educação).

“E o corpo ainda é pouco / E o corpo ainda é pouco / Assim…”

Com o salário, embora pouco, não tendo que dar quase nada em casa (o pai continuava com o mesmo orgulho idiota de quase duas décadas antes: ser o provedor da família), abriu uma conta na farmácia da esquina. Ficou o melhor freguês, bajulado pelo farmacêutico de plantão e as mocinhas, solícitas, sempre oferecendo o melhor antiácido, o lançamento em supositórios e suas várias utilidades (analgésicos, antiasmáticos, antieméticos, antigripais, anti-reumáticos, broncolíticos, cardiovasculares, espasmolíticos, estomacais, expectorantes, laxantes, psicotrópicos, sedantes e urológicos, entre outras). Tônicos para aperitivo (abrir o apetite) e hepáticos (para facilitar a digestão), vitaminas B, C, D…, enfim, todo o alfabeto latino, às vezes incluindo o cirílico, conforme a necessidade.

“Reumatismo, raquitismo / Cistite, disritmia / Hérnia, pediculose / Tétano, hipocrisia /”

Daí a comprar por atacado (quase levando à falência a antiga farmacinha da esquina, que agora parecia um shopping “da saúde”, o que fez com que os farmacêuticos, os estagiários em farmácia, as mocinhas do balcão e os moços da reposição do estoque, antes seus melhores amigos, virassem o rosto à sua passagem, na iminência de perderem o emprego) foi um pulo.

“Brucelose, febre tifóide / Arteriosclerose, miopia / Catapora, culpa, cárie / Câimbra, lepra, afasia…”

Foi quando o patrão, preocupado (ele, afinal, era um bom funcionário, salvo as idas constantes ao bebedouro, para ajudar a engolir o comprimido, ou diluir o extrato) pediu que ele procurasse ajuda profissional, psicólogo ou psiquiatra, pois ele deveria ser hipocondríaco. Hipo o quê? H i p o c o n d r í a c o, cara… Estado mental em que há depressão e doentia preocupação com a própria saúde, ou seja, o seu caso… Eu não sou médico nem nada, mas tá na cara. Outro dia passou no Fantástico, eu disse pra minha mulher: Já vi este filme.

“O pulso ainda pulsa / E o corpo ainda é pouco / Ainda pulsa / Ainda é pouco / Assim…”

O psiquiatra, o psicólogo e a enfermeira do posto de saúde do bairro aconselharam-se a abandonar os remédios. Procurar um grupo de apoio, algo como o A.A., talvez o N.A., ou o H.A. – Hipocondríacos Anônimos –, que ele poderia fundar, se não existisse. Mas como, agora, aprender a viver sem suas muletas, seus amigos, suas terapêuticas? Alopatia ou homeopatia, não importava o sistema, o importante era o método, os efeitos, as sensações que lhe proporcionavam. Na sua angústia, experimentou pela última vez – pois iria seguir à risca a orientação dos diferentes conselheiros – cada um de seus “agentes de cura”, cada um com sua particularidade, especificidade, cor, forma física, dureza, viscosidade, sabor…

Entre a depressão e a euforia repetia as doses, que eram replicadas depois, até que caiu, desacordado, ou quase. Um fundo de consciência deixava entrever, no fim do túnel, uma luminescência azulada, com sabor indefinido, de uma substância que ele precisava, ainda que lhe valesse a vida, experimentar. Pela última vez.

“Pulso / Pulso / Pulso / Pulso”


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6 respostas para Hipocondria (Inacio Carreira)

  1. Tiago disse:

    Acho essa música o máximo.
    E o conto então?! Ficou ótimo Inacio.

    Abração.

  2. Loreno Luiz Zatelli Hagedorn disse:

    Ina, seu livro tá crescente. Este teu último conto, está fantástico! Adorei.
    Trabalho nego, trabalha!!!!!!

  3. Vana disse:

    Se é que pode se rir de dependência, uma forma leve sobre screver assunto tão pesado.
    Adorei o sarcasmo de misturar doenças com situações emocionais, acho até que poderiam ter mais dessas situações. Bem sabes que toda e qualquer dependência é engatada no emocional acima de tudo, com frugais toques genéticos.

  4. Sônia Pillon disse:

    Mestre Inácio, genial!!

  5. Caco disse:

    AMEI. ME VEJO UM POUCO NISSO TUDO QUE ESCREVESTE. O QUE TEM DE BOM NISSO É QUE COM O PASSAR DO TEMPO E ALGUMA AJUDA, VAMOS PERCEBENDO QUE AS DROGAS SERVEM PARA APAZIGUAR A ALMA DE OUTRAS DROGAS QUE TEMOS EM NOSSA VIDA.. MUDANÇAS FÍSICAS, EMOCIONAIS, ALIMENTARES SÃO EXCELENTES PARA DEIXAR ESSE MONTE DE DROGAS DE FARMÁCIA. MAS É PRECISO MIUDAR A FORMA DE PENSAR, AGRADECER A CADA DIA E TRAÇAR BONS OBJETIVOS.
    .

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