Quase um santo (Inacio Carreira)

O Zé ficou triste quando ouviu a notícia. Morrera um grande homem.

– Poxa, disse consternado para o Jão, o vice morreu.

– Pena que não foi o titular, retrucou o outro, puteado.

– Diz isto não, cara… Quantas vezes o Zé lutou contra a morte e venceu? É um herói. Até que a marvada levou ele, que aqui ninguém fica mermo.

– Venceu porque tinha grana. Lembra da dona Zica, da vendica? Foi de primera, não teve escolha. E a Lindinha, do Tonhão? Ficou mesmo foi na fila de espera. Agora, esses bacana, vão em tudo que é médico do mundo, são mais bem tratado que cavalo de corrida… Acha que eu vou ficá triste? Foi tarde… O que ele fez enquanto tava lá? Reclamou dos juros alto, que interessava pra ele, como gente grande dos panos…

– Fala assim, não… Sofreu tanto…

– E o povão, sofre não? Esse aí se juntou ao barbudo “dos trabalhador” pra usar o poder e ganhar mais. Que nem aquela mulherzinha da fábrica de sabão, como é mesmo? A suplício…

– Suplicí… aquela que mandava os ôtro gozá… Bem relaxada, ela…

– Sim, relaxados são eles todo, e a gente ainda sustenta essa máquina de fazê corrupto.

– Mas ele foi perseguido, como todo mundo que se destaca na vida. Lembra aquela uma que diz que é filha dele?

– … e que ele foi no programa do gordo pra dizer que era filha da puta? Bem sacana ele… Foi ganhá a simpatia do povo dizendo que ia em putero que nem todo mundo… Todo mundo não, que eu nunca fui dado a essas coisa, ficava mesmo no cinco contra um enquanto não arrumei a Zefa pra trepá… Deus mandou cresce e multiplicá, não ficá indo em putero dá dinheiro pra vagabunda…

– Olha o preconceito, cara, isso dá cadeia. Puta agora é profissão.

– Sim, hoje tudo dá cadeia, menos metê a mão no bolso do cara honesto. Vê o salário mínimo? Eles brigam pra aumentar cinco real mas o deles não tem limite. E ainda ganha até telefone de graça, de graça não, nós paga…

– Quanta revolta, cara, fala assim não. É verdade, mas não precisa falá. Resolve?

– E aí vem a televisão e mostra o povo chorando porque um ricaço morreu. Tu já ouviu falá de uma tal de revolução da francesa? Aquela, quando eles derrubaram um negócio lá na França. Negócio de bartira, pastilha, bastilha, acho que é isso…

– Ouvi não, fugi da escola…

– Eu também fugi, quer dizer, nem fui. Modo de dizê, só… Mas escutei uns velho falando… Passaram o facão em tudo que era ricaço. Não que a gente devesse fazê isso aqui, não, que sou contra violência, mas e a violência que fazem com a gente? Esse negócio de doença, cara…

– É, nisso concordo contigo, continua a lei do “sabe com que tá falano”… do “quem pode mais chora menos”, do “salve-se quem puder”… A lei da selva.

– Tu tá vendo muita novela, cara… Papo estranho, esse teu.

– Novela nada. Eu tenho tempo pra isso? Vez em quando vejo o jornal, ou o futebol na TV do barzinho da esquina, ou em alguma loja no centro. Mas em casa… Quando não está estragada a gurizada só quer saber de ver aqueles programa de perseguir bandido, parece a suáti… Mas a gente sabe que é tudo encenação, teatro, não é assim que diz?

– E enquanto isto o povão otário chora a morte do ricaço. Comeu do bom e do melhor, correu o mundo todo, foi tratado como otoridade na vida e na morte, e eu vou ficá com pena? Quem tem pena é galinha, sô… Do jeito que a coisa tá, só falta agora fazê feriado, ou dia santo, pra homenageá o home…

– Talvez fosse bão, sim… Nós temo o Padim Ciço, mas é só no norte… E essa madre, mas é no sul. Tinha que tê um santo de todos os brasilero, que nem a Cidinha, mas essa é maior…

– Santo brasileiro? Só se for protetor das casa de luz vermelha… O santo das putas. Que nem aquele bandido, também da luz vermelha, quase um herói. Tem até filme. Vítima da sociedade, como eles diz.

– Credo em cruz! Arreda…

Inacio Carreira

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5 respostas para Quase um santo (Inacio Carreira)

  1. Vana disse:

    Bonito conseguir por em plavreado simples (difícil para uma pessoa letrada) acontecimentos graves. É como olhar com os olhos do outro o que dá uma visão nova e ampla.
    Uma simplicidade não inventada, mas bem real se prestarmos atenção em como o povo sente as coisas.
    Só uma dúvida: Zica da vendica é propocital?
    Mais uma vez e já me trono repetitiva: conseguiste o ponto equilibrado entre ver e dizer. Muito bom

  2. Loreno Luiz Zatelli Hagedorn disse:

    Pois então Kara, gostei como de resto tenho gostado de tudo. Já está no arquivo. abraços

    Loreno

  3. Fred Paiva disse:

    Arreda!!

    hahahaha adorei! essa politicagem é fruta q caiu do pé: ninguém mais quer comer…

  4. Que viva as p… pelo menos as filhas…
    Inácio, como te disse “ía Lê” i lí”…
    Parabéns pelo texto muito bom!

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