Um pote de Sol (Vilson Rafael Riegel)

Um dia, andando pela rua, vi um senhor sentado em um dos bancos da calçada. Parecia alguém que ficou muito sozinho nessa vida. Seu rosto trazia as marcas de alguém que não sorriu muito e que não teve muito carinho. Seus olhos sempre fitavam para o mesmo ponto, estáticos, congelados ao brilho do sol, um paradoxo que o contexto permite.

Notei que ele ficava nesse banco todos os dias, sempre do mesmo modo, olhando para o céu. Aos poucos fui reparando e notei que além de um copo plástico fumegante contendo café ao seu lado também havia um recipiente de vidro, com uma tampa já gasta. O pote parecia vazio.

Em outro dia, andando pela rua, revi o senhor do banco, que deixara de ser apenas um senhor, à medida que contava aos meus daquela figura que tanto me intrigava. Nesse dia, sentei ao seu lado e sem que eu fizesse qualquer pergunta, sua boca recortada se abriu e ele disse:

– Há dias esperava por isso. – falou sem tirar os olhos do céu – O sol está lindo hoje, não acha?

Eu me limitei a responder que sim. Realmente estava. Quase não havia nuvens no céu, com exceção de um coelho que eu via a oeste…

Sem pestanejar e sem tirar os olhos do céu, aquela voz gutural, pouco usada, voltou a soar, dessa vez mais pesada, mesmo que não pudesse ser:

– Passei a vida contemplando a beleza do sol. Seu calor e sua luz sempre foi o que faltou pra mim. Vivo sozinho desde sempre, pois esta vida não me deu outras opções. O lugar onde moro parece vazio, como este pote que você repara todos os dias. Lá também não é um lugar muito aquecido, tal um coração sem amor. Senti que o único amigo que tive em toda esta vida foi o sol, que me abraçava sem que eu pedisse, sem nunca pedir nada em troca. Mas sempre que chegava a noite, tudo se acabava e o tempo reduzia seu ritmo, no ritmo descompassado de um coração que para de bater.

Após sorver um demorado gole de café, continuou:

– Por muito tempo tentei guardar para mim um pouco dessa luz. Passava dias olhando para o sol, com este vidro em minhas mãos, quando achava que ele estava completo fechava a tampa rapidamente e o guardava comigo. A noite chegava e nada estava diferente, a não ser minha pele castigada pelo constante calor onde o suor escorria e não bastava. Dia a dia eu repeti minha rotina e as noites foram ficando cada vez mais escuras, cada vez mais. A única certeza era que outro dia viria e eu novamente tentaria…

Pela primeira vez o senhor deixava de olhar para o céu e olhou diretamente nos meus olhos. O azul confuso de suas órbitas me deixou estupefato, procurando um ponto fixo onde não havia nada. Em tom de sentença o senhor completou:

– Em uma manhã perdida no tempo levantei daquilo a que chamo cama e me vi mergulhado na escuridão. Maior que os outros dias, tão iguais e tão diferentes. Não vi meu reflexo no espelho. Não vi o espelho. Não vi as paredes. Não vi e não vejo, pois o sol cobrou seu preço, pelo acalento e pelo abraço levou a minha visão para que eu me desse conta de tudo o que não sentia. Pois agora enxergo com a alma…

Vilson Rafael Riegel
vilson@idecom.art.br

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5 respostas para Um pote de Sol (Vilson Rafael Riegel)

  1. inacio carreira disse:

    Parabéns, Cara, seja Bem-Vindo.
    Abraços.

  2. Anônimo disse:

    Maravilhoso…como sempre surpreendente…

  3. Anônimo disse:

    Lindo texto!!!

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