Ela vai viajar… (Inacio Carreira)

Para Lily Farias

Acordou com um pressentimento estranho… E se não desse certo? Vái-te, coisa ruim, afasta esse pensamento medonho… Afinal, que mal tem sair um pouco de casa? Ver o mundo? Ela, apesar dos 45 anos bem vividos (dentro de suas perspectivas de mundo), nunca saíra de sua cidade natal. Seu torrão querido e mais todos os lugares comuns com que normalmente designamos o “marco geodésico” onde fomos colocados no mundo, dados à luz, o que também são lugares comuns.

Quarenta e cinco anos… 45 anos… Os dez primeiros foram ocupados em aprender a colocar o corpo em equilíbrio, movimentá-lo, fazer dos tartamudeios um discurso inteligível, no mínimo para as gentes que com ela conviviam, que as demais não contavam; cheirar, provar, ingerir o maior número possível de coisas ao alcance das mãos, aprovando e reprovando as texturas e sabores, conforme o acúmulo de suas experiências sensoriais. Conseguiu. Com muito custo. Depois, dos 11 aos 20, mais ou menos, aprendeu a desenhar o nome, ler de “carreirinha” e fugir dos meninos e “dessa gurizada fidamãe” que queriam, a toda força, torná-la mulher. Muitos conseguiram, por vezes ela se deixava pegar, fazendo parte do jogo e tirando, sim, embora negasse ao padre, algum prazer do resultado. Graçasadeus nunca ficou prenhe, isto ninguém podia lhe jogar na cara. Não era como umas e outras que, a partir dos 12, 13 anos, colecionavam filhos, um de cada cor, conforme o grupo de turistas ou caminhoneiros que passavam pela sua pequena Miraflor. Elas, as moças miraflorenhas (somente depois dos 40 soube que as chamavam assim) eram bonitas, fruto da miscigenação (até hoje ela não sabe o significado desta palavra) entre noruegueses, chineses e mamelucos. Não, não vou explicar como se juntaram gentes tão diferentes nesse pedaço de mundo, daria um livro desse tamanho, nem te conto… Essa beleza exótica, que misturava pele alva, cabelos lisos e olhos claros, na maioria das vezes, era estonteante. Quantas promessas, a quanta proposta ela fez ouvidos moucos, pensando no seu “pedacinho de chão”, como dizia, fazendo graça e deixando os convidadeiros com mais vontade de fazer propostas, de levar “recuerdos de Miraflor”. Mas ela não! Tanto que, quase aos 21, juntou pertences, esperanças e “uns arrepios que começavam no alto da espinha e iam até onde nem te conto” com um tal Jão, que veio de algum lugar, filho de quem com ninguém sabe. Apesar das credenciais pouco atrativas, Jão era diferente. Viera de outros lugares, andara por outros mundos, tinha um quê de sedutor que fazia com que ela se esquecesse de tudo, até que havia coisas a serem descobertas, coisas a serem nominadas, saberes a serem sabidos. Ela ficou sendo, a partir de então e durante 25 anos seguintes, a mulher do Jão. E seus dias resumiam-se a arranhar a terra para depositar sementes, arranhar a terra para expulsar ervas daninhas, arranhar a terra para buscar, das entranhas, as raízes que alimentavam a ela e aos seus. Mas, em primeiro lugar, ao Jão. Até que ele (com quem também não procriou, talvez culpa dela, talvez dele, que nunca se soube tivesse deixado mulher cheia) um dia não voltou. Veio o feitor dizer de sua queda, de sua desdita, de seu sumiço na terra que ela tanto arranhava, e que feriria tanto na busca de seu Jão até que o sangue regasse as raízes, suas unhas transformadas em goivas, seus olhos transmudados em cascatas, seu pensamento somente lá. Na terra de Jão. Sacudiu a cabeça, mandando os pensamentos para outro canto, e fez-se bonita, tanto quanto podia, tanto quanto ele a elogiava. Meias ¾, rasteirinha (pode ser longe, fica cansativo ir de saltinho), a saia de pregas que a vizinha, quando engordou, doou para ela, a camiseta do time do coração de Jão e o boné da empresa. Sim, o boné da empresa é que a identificaria no ponto de ônibus, onde depois de uma viagem de mais de 30 minutos, quando descesse, um ex-colega de seu defunto preferido a esperaria, para levar ao campo santo. A terra do Jão. Para onde ela ia agora, visitar o lugar onde depositaram os despojos, chorar sua saudade, levar – talvez – uma de suas raízes para plantar bem onde ele estava, e que as raízes encontrassem seu homem e dele se nutrissem. Ela voltaria no próximo ano, e no outro, e até quando tivesse vida, para nutrir-se indiretamente da seiva daquele que a fizera tão feliz.

Quarenta e cinco anos sem sair do lugar onde nascera. Esperava retornar breve, o mais breve possível, talvez naquela mesma noite, que ficar no mundo tanto tempo não é fácil, não.

Inacio Carreira
associação beneficente novo amanhã / comunidade terapêutica
www.novoamanha.org.br

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9 respostas para Ela vai viajar… (Inacio Carreira)

  1. Rosi disse:

    Continue sempre escrevendo Ina, seus contos são inspirações divinas!

  2. Mainara disse:

    Maravilhoso…gostei muito!

  3. eu que ando lendo sobre técnica literária, babei nesse teu texto. tá impecável, além de ser um conto atraente.

  4. Janete Grossklaus disse:

    Querido Inácio …ainda bem que parou de usar pseudônimo!!! Eu gosto muito do que escreve…acrescenta…diverte….e remete ao simplório….e o que é simples..é belo !!!! Sempre um apredizado!!! Bjs!!!

  5. Muito bom… é inspirador ler um texto escrito pelo Tio Inacio, o cara manda vê…
    Abraços Meu caro amigo!

    E outro para nossa queridissima amiga Lily.

  6. Vana Comissoli disse:

    Que profunda e poética forma de ver o amor simples de pessoas simples.
    Fiquei desejando ser amada desta maneira.
    É muito difícil escrever sobre um universo que não é o nosso, conseguiste muito bem.
    Emociona.
    Bjs

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