Conto para esquecer (Inacio Carreira)

Para Yasunari Kawabata e
Gabriel Garcia Márquez,
de felizes memórias

Pensando bem, no final das contas o fato de ter visto tanta coisa neste mundo de meu deus fez com que ele como se não houvesse captado nada do entorno e permanecesse agora, nesse fim de viagem, quase virgem. Seu cérebro, tal qual nascituro. Vazio.

Mas de uma coisa ele não esquecia: a particularidade anatômica, íntima, de uma mulher. Toda vez que a via – e viam-se pouco, embora morando na mesma e pequena cidade – vinha à sua memória, gasta pelos anos [ele sentindo algo semelhante a pudor, vergonha?, procurando desviar os olhos do olhar da dona. Que talvez nem o conhecesse, ou nem o reconhecesse, apesar de bem mais nova e, com toda certeza, não sofrendo dos lapsos que o atingem]. Mas, se os olhos não se cruzam, ele não pode impedir que seu próprio olhar, entre matreiro e dissimulado, dirija-se ao ponto X.

Não que tivesse intimidades com ela, não. Intimidades: mesmo com a memória gasta, vêm à mesma sensações, texturas, sabores. Mas em massa, genericamente. A não ser por duas outras lembranças, de namorantes, sobre particularidades capilares íntimas (uma pela falta, outra pelo excesso), que não podem jamais cair no olvido. Ambas fogosas, até onde lembra, o relacionamento com elas era diferente. Com a, digamos assim, careca, ele era mais o alvo da paixão, servindo acertadamente aos jogos de cama que, grosso modo, seriam comparáveis às pugnas de Olímpia. Nada de joguinhos estaduais, campeonatos abertos, melhor de três: não! Olimpíadas é a palavra que melhor aponta para aqueles jogos comandados por Eros, onde o pomo de Vênus fazia-se caça e caçador e, ao final, as medalhas eram distribuídas entre os contendores, não havendo vencidos: como sói acontecer nas boas pelejas motivadas pelos instintos que, quanto mais baixos, melhor o jogo, onde a regra é não tê-las.

Mas essa particularidade referente à pilosidade, quanto à falta ou excesso, não é nada perto daquela primeira, que afinal perdeu-a (a particularidade, diga-se bem) por desdenhar, por não querer mostrar-se ao parceiro, ou parceiros, que isso era lá problema daquela senhora… fosse ele um dos escolhidos em sua versão original e teria dito que não, não fizesse aquela mutilação, mais é menos quando se trata de intimidades.

Se nós, homens, e cada vez mais no caso dele, apesar dos aditivos, temos que saber conviver com a máquina que, eventualmente, falha; com o motor que vez em quando nem no tranco pega, porque uma jovem tem que submeter-se aos ditames da moda íntima? Existe essa expressão? Acredito que sim, com o privado mais e mais tornado público, com cenas [iguais às especialidades dos ocupantes dos lupanares romanos] expostas nas paredes, posters pré-vesuvianos, mostrando suas preferências, hoje à vista nas bancas de revista, videolocadoras e, santa invasão da inocência, até nos chamados mercadinhos, partilhando conosco na escolha de repolhos, batatas, iogurtes…

Outra aventura ressalta, aflora à sua consciência agora que nisso pensa – são profundos os arquivos da mente -, pois não conseguia outra dona abrir-se ao ato, compartilhar do jogo. Mesquinharia, egoísmo, talvez, o não querer doar-se ao parceiro. Não conseguir relaxar a guarda e acolher, em seu castelo, tão nobre cavaleiro, de cuja armadura ela apreciava o toque, mas não baixava a proteção, não descia a ponte levadiça, não franqueava seus países baixos.

Porém estão todas no passado, e foi rico seu passado. Pena que já não tem pena, por esquecido estar. Com breves lampejos de lucidez, as lembranças ficaram no Grande Nada oposto ao Big Bang gerador de matéria: todas, menos a da mulher de particularidade anatômica que, se revelada fosse, seria digna de figurar no Guiness Book. As outras particularidades? Bah, esqueçam, diria.

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3 respostas para Conto para esquecer (Inacio Carreira)

  1. Vana Comissoli disse:

    Bela e elegante remorização de erotismo discreto.

  2. Sônia Pillon disse:

    Inácio! Sem dúvida uma forma elegante de abordar as artes e artimanhas de Eros!…

  3. iea disse:

    o que seria do erotismo se não cantasse, o que seria do sexo se não falasse, que seria do autor se não fizesse, o que seria da arte se não brilhasse e o contra-senso na afirmação…se não fosse feita…ainda bem que temos você Inácio!

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