O órfão e o almoço de Natal (Sônia Pillon)

A vidraça quebrada da janela do orfanato mal conseguia conter a água da chuva que invadia o alojamento dos meninos. Os pingos se confundiam com as lágrimas de Ângelo. O mundo lá fora causava uma inquietação indefinível para ele, misto de esperança e medo. Ângelo sempre ficava imaginando como seria ter o carinho de uma mãe e um pai, longe da rispidez dos monitores, que mais pareciam generais comandando suas tropas.

Lembra também do pavor que desde os quatro anos o acompanha, toda vez que atravessa os corredores escuros do orfanato, ou quando está dormindo no beliche.

Já haviam se passado seis anos, mas parece que foi ontem que viu seu amigo José ser atacado por um monitor no meio da noite. Não consegue esquecer a visão terrível do amigo, que gemia baixinho e se debatia inutilmente enquanto era violentado, enquanto imperava o mais completo silêncio no alojamento.

Desconfia que todos fingiam nada ver, seja por covardia, indiferença, medo, ou por uma espécie de consolo cruel, por já terem passado pela mesma situação. Também não tira da cabeça a cena do pequeno José que continuou a chorar baixinho, de dor e humilhação, enquanto o encardido lençol se tingia de sangue e ele desmaiava em seguida.

Pouco depois o alerta foi dado. José foi levado às pressas para a enfermaria, e nunca mais foi visto. Nem o monitor. Disseram que seu amigo foi para um hospital porque estava doente, com hemorróidas, e que depois foi transferido para outro orfanato. Todos foram proibidos de falar sobre o assunto, e o caso foi abafado.  – Onde ele está agora?, se perguntava.

Ângelo continua olhando para fora das grades do orfanato. É madrugada e está com sono, mas sabe que não conseguirá mais dormir. Todas as noites tem o mesmo pesadelo, em que vê o cruel monitor chegando de mansinho para perto de sua cama. Nessas horas, acorda sobressaltado, suando muito, e fica olhando a rua lá fora, rezando para a maioridade chegar logo, para começar uma vida nova, ou até antes, se for adotado por alguma família.

Ângelo fica se imaginando, andando livre por aquela rua, trabalhando como cheff de cozinha, em um restaurante ou grande hotel, seu grande sonho. Aliás, estar na cozinha é o que mais gosta de fazer. Gosta de ver o corre-corre das cozinheiras, cortando legumes, verduras, temperando e cozinhando a comida que será servida no refeitório.

Os aromas dos temperos e do cozimento fazia sua imaginação voar para fora dos portões daquele cinzento orfanato. Era como se o cheiro dos alimentos, levado pelo ar, levasse também seu espírito, voando livre e cheio de esperanças.

Nunca apreciou estudar, mas quando a nutricionista Alva disse a ele que se estudasse, o ajudaria a se tornar um grande mestre-cuca, viu nessa oportunidade a única saída para fugir da marginalidade, ou da pobreza.

– Um dia eu vou voltar aqui como um cheff , e vou distribuir comida boa, “papa fina”, para esses órfãos todos!

Dez anos se passaram desde aquela noite chuvosa. Alva cumpriu a sua promessa de ajudar Ângelo, que ao sair do orfanato foi indicado para trabalhar num restaurante, inicialmente como auxiliar, e depois como cozinheiro e chefe. Trabalhava de dia e era aluno bolsista de gastronomia à noite. Se tornou um cheff respeitado, apesar de ainda muito jovem.

– Finalmente chegou a hora!…

Nesse momento, Ângelo olha atentamente para o refeitório recém-reformado, para as toalhas impecavelmente brancas, para os sorrisos e os olhos das crianças, que brilham de alegria enquanto saboreiam os pratos preparados por ele.

– Senhor Ângelo, as crianças querem agradecer o almoço e os presentes de Natal cantando uma música de Natal, diz a diretora do orfanato.

Lágrimas incontidas escorrem pelo rosto do jovem cheff , que falou com voz embargada.

– Vocês não precisam me agradecer, gente! Eu já fui como vocês, e prometi a mim mesmo que um dia voltaria aqui… Acreditem em vocês mesmos, estudem, escolham uma profissão que gostem, e nunca desistam de seus sonhos!… Ano que vem eu volto aqui!…

O almoço terminou. Os presentes foram abertos com euforia pelos órfãos, que cantaram hinos natalinos em agradecimento àquele homem tão bom, que para surpresa deles também já fora um interno do orfanato… Chegou a hora das despedidas, dos abraços, e de ver olhares de esperança naqueles meninos e meninas.

– Hoje exorcizei os meus fantasmas!, disse baixinho para si mesmo, enquanto lançava um último olhar para aquele prédio cinzento, que naquele momento deixou de ser assustador para ele, definitivamente.

Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.

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3 respostas para O órfão e o almoço de Natal (Sônia Pillon)

  1. Fernando disse:

    belo e comovente texto. daqueles que, de tão convincente, a gente fica pensando, quanto aí é ficção, quanto é real.
    bjo

  2. Sônia Pillon disse:

    Fernando, realmente foi ao ver uma mendiga com as pernas inchadas e feridas nos pés, sempre em frente à Igreja Luterana, no centro, que me surgiu essa personagem… A ideia foi justamente essa, de criar uma personagem com características bem reais, que pode ser encontrada em qualquer hora e em qualquer lugar…
    Bjo

    • Sônia Pillon disse:

      Ops!… Estava me referindo ao outro conto, Dona Esperança…

      Esse do orfanato em questão, realmente é ficção, mas com um recorte jornalístico, de certa forma… Já fui estagiária da antiga Febem, em Porto Alegre, e sei da dura realidade dos órfãos criados lá, expostos a todo tipo de violência…

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