Estava esperando por você (Sônia Pillon)

Hoje acordei com essa sensação estranha de paz. O sol de outono que entrou pela janela, sacudindo as cortinas, e o canto dos pássaros no cinamomo me fizeram muito bem. Pela primeira vez, depois de tantos anos, não senti aquela angústia cortante, aquele desânimo de ter que enfrentar mais um dia interminável, empurrada pela enfermeira nessa cadeira de rodas pelos frios corredores desse asilo “cinco estrelas”. Podem dizer o que quiserem, mas para mim esse lugar nunca passou de um depósito de velhos à espera da morte.

Dez anos!… Não dá para acreditar que o Ernesto morreu daquele jeito, de ataque cardíaco… Pensando bem, até que faz sentido, porque ele tinha um coração de ouro, mesmo. Todo mundo dizia isso. Eu é que era a megera! Só um homem como ele para aguentar o meu mau humor, o meu temperamento explosivo, a minha arrogância, durante quase 50 anos… Mas na época, aquela calma toda dele me irritava! Como eu fui cega e ingrata, por não saber retribuir a dedicação do amor da minha vida…

Só depois que ele morreu e que a nossa única filha me jogou aqui, e se apoderou de todos os meus bens, é que eu entendi o quanto ele me amava! Mas a culpada disso tudo sou eu mesma, que sempre ensinei à ela que o mais importante nessa vida era ter status e dinheiro. Deter o poder, acima de tudo! Estou pagando o preço da minha própria soberba.

No começo, até que a Carmem vinha aqui fazer o papel de filha prestimosa, mas foi só eu passar a procuração para ela tocar os negócios da empresa que as visitas começaram a rarear, até cessarem totalmente. Me deixou uma enfermeira particular e crédito para tudo o que precisasse aqui dentro. Quanta bondade!…

Desde que eu tive o derrame e fiquei condenada a não andar nunca mais, pouco tempo depois da viuvez, sempre amaldiçoei essa cadeira! Odiava ver essas minhas pernas atrofiadas e cobertas com esse cobertor xadrez. Era insuportável ver o olhar de compaixão das pessoas quando me viam. Quem diria, a poderosa e temida dona Gertrudes, entrevada para sempre! Com certeza muitos devem ter dito que era castigo, e deve ter sido mesmo.

Estranhamente, hoje toda a minha revolta parece ter perdido o sentido. O abandono, a minha paralisia irreversível, a solidão, nada disso parece mais importar. Pela primeira vez, desde que vim para cá, essas lágrimas não são de tristeza. Estou me sentindo tão feliz! Inexplicavelmente, sinto um alívio que vem do fundo da alma. Solto um longo suspiro e parece que toda a dor se dissipa.

– Bom dia, dona Gertrudes! Hora de levantar! Dormiu bem a noite?, perguntou a enfermeira, ao entrar subitamente no quarto, com sincera preocupação no olhar.

– Sim, Ângela, dormi muito bem, não senti dores nem tive pesadelos essa noite. Acordei com o sol e com os som dos passarinhos…

– A senhora está chorando?! O que aconteceu?…

– Está tudo bem. Eu estava me lembrando do meu velho. Esse mês fazem dez anos que ele me deixou. Ele era um homem muito bom…

– É, ouvi falar dele, sim. O pessoal aqui do ancionato diz que ele era um homem muito querido, até pelos empregados… Mas agora está na hora de tomar o seu remédio, dona Gertrudes. Isso. Agora vamos trocar esse fraldão e depois tirar esse camisolão… Daqui a pouco vão servir o café no refeitório.

– Ângela, hoje eu quero que você me coloque aquele vestido de veludo verde e arrume o meu cabelo. Quero ir bem arrumada para o café. E depois quero passear um pouco no jardim, aproveitar esse sol da manhã.

– Boa ideia, dona Gertrudes! Essa história de ficar trancada o tempo todo dentro desse quarto não estava certo! A partir de hoje, vamos sempre passear lá fora, a não ser que chova, é claro. Vai lhe fazer muito bem para a saúde. Eu sempre lhe disse isso, lembra?

– Quero o meu cabelo bem penteado. Assim. Agora me traz aquela necessaire ali. Estou precisando de uma base e de um batom suave. Isso mesmo. Obrigada. Não dá para fazer milagre com 80 anos nas costas, mas sempre ajuda…

– Ora, ora, a senhora está ótima! Vamos então que o café já está na mesa… Sorriso no rosto, isso mesmo…

– Quanta gente por aqui… A Filomena também?! Foi minha comadre… Éramos tão amigas, antes do meu casamento… Ela ainda deve estar magoada comigo…

– Ela tem Mal de Alzheimer, não reconhece mais  ninguém… Tem um filho que a visita toda a semana, mas ela fica sempre assim, com o olhar perdido…

– Que pena… Gostaria de conversar com ela, lembrar da nossa juventude… Olha, Ângela, tem cuca de banana com farofa, que eu adoro… Eu devia ter vindo mais vezes fazer as refeições com os outros… Teria me sentido menos só…

– Aproveite que o café de domingo é especial… Ué? Já terminou?…

– Sim… Agora pode me levar para o jardim, debaixo daquele cinamomo lá, perto do portão… Tem uma sombra gostosa, e assim posso ver as flores e respirar um pouco de ar puro…

– Pronto. Chegamos. Precisa de mais alguma coisa, dona Gertrudes?

– Sim. Tenho um pedido especial para você.Quero que me perdoe por ter sido sempre tão grosseira com você, Ângela. Você sempre foi muito dedicada e eu nunca agradeci por isso…

– O que é isso?… Eu entendo… Não se preocupe… Claro que eu desculpo, esqueça isso, dona Gerturdes… O importante é que a senhora está se sentindo bem e que a partir de hoje vai passear mais, ficar mais alegre…

– Eu sempre fui muito perfeccionista. Exigia demais de mim mesma e dos outros. Humilhava as pessoas que não eram da mesma classe social. Se pudesse voltar atrás… Ângela, será que você pode conseguir uma câmara para fotografar esse jardim? Está tão bonito…

– Claro, vou buscar o meu celular, já volto… Qualquer coisa, dê um grito para a Claudete, que está limpando o salão de visitas…

– Não se preocupe comigo, eu estou bem, Ângela… Vai… Hoje o céu está tão azul… Não tem nenhuma nuvem… E essas rosas vermelhas… Lindas!… As borboletas estão fazendo a festa… O gramado parece mais verde do que de costume. Ah, finalmente!… Meu amado!… Senti tanta saudade!… Estava esperando por você…

Texto produzido em 2 de agosto de 2010.
Sônia Pillon, jornalista e escritora
soniapillon@gmail.com

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