No ginecologista (Marcelo Lamas)

Há tempo que a visita estava prometida. Por duas vezes recebi de presente livros escritos pelo Dr. Lori Krusser. O médico renomado no pampa gaúcho é daqueles que merecem ser chamados de doutor. Da escola antiga, em que o médico ia à casa do paciente e que as consultas não eram relâmpagos. O médico olhava no olho do doente. Especialista em seres humanos, o Dr. Lori fazia todo tipo de atendimento e cirurgias.

Depois de ler os livros do Dr. Lori, cheios de causos de cidades do interior, escrevi-lhe uma carta comentando sobre a riqueza da sua literatura. De alto nível, ambos: “Prosa à sombra do cinamomo” e “Gado da mesma marca”, com pleno teor de sentimento em suas linhas, coisa que só os grandes escritores conseguem fazer, como Erico Verissimo. E este não é um pensamento isolado meu, pois o senhor de cabelos grisalhos foi convidado para participar da Academia Sul-Brasileira de Letras. Recusou o convite, acreditando modestamente que, com apenas duas obras, não era digno de ocupar uma cadeira de imortal.

Assim, procurei o Dr. Lori para termos uma conversa sobre a arte de escrever. Ele marcou no seu consultório, às três e meia da tarde, depois da última consulta.
Quando cheguei, antecipado, li na porta: DR. LORI KRUSSER — GINECOLOGISTA.
Pensando no mico de entrar num consultório daquele, lembrei do provérbio popular: “Já que estamos no inferno, o que custa dar um abraço no diabo?” Entrei e fiquei lá no meio da mulherada, que aguardava consultas com ele, sua filha e seu genro, todos médicos de senhoras.
Algumas me olharam estranhamente, mas graças à modernidade globalizada, logo me senti invisível, tudo normal.
Mas, quando a recepcionista me chamou pelo nome, todos, digo, todas, riram.

O homem septuagenário me recebeu feliz, por conhecer alguém que admirava seu trabalho de contador de histórias.
Entre muitos, me contou um causo da época em que era jovem e visitava sua cidade natal de Santaninha, no centro do RS, onde uma mulher grávida estava com muita hemorragia. O médico fez o primeiro atendimento e seguiu numa carroça junto com a paciente para o hospital, onde conseguiu controlar a perda de sangue, salvando a mãe, mas o bebê infelizmente não teve a mesma sorte.
Com a mesma modéstia de quem não aceitou a homenagem das letras, disse: “Não fui eu quem salvou a mulher. Foi o Homem lá de cima. Ele “apenas” me utilizou como instrumento”.


Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

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