A parceria com o pai (Marcelo Lamas)


Na infância tínhamos um time de futebol que era gerido pelo sistema sócio-atleta, expressão para dizer que todas as despesas eram bancadas por nós, os jogadores. E não havia interferência de adultos na nossa instituição.
O nome do time tinha vindo escrito nas costas do uniforme que compramos de segunda-mão: Americano FC. O negócio foi feito às pressas, com o dinheiro que um colega tinha ganhado no jogo do bicho, antes do Torneio Dia da Criança, que viria a ser o nosso primeiro troféu.
Com o passar do tempo, aquele uniforme verde, de tamanho adulto, enorme para uns magrelos de 12 anos, estava muito feio, desbotado.
Numa noite, sonhei que nosso time estava jogando com um uniforme novo, personalizado com nossos nomes nas costas.
Falei com o Julinho, que era da loja de esportes da cidade e ele fez um orçamento. Reuni a turma para ver se a soma das mesadas seria suficiente. Em cinco meses dava para pagar tudo. O sonho começava a tomar forma.
Houve um problema. Crédito. Como o valor era alto, fiquei com medo de que meu credor paterno se recusasse a fazer a compra.
Na época, um negócio lucrativo era guardar dólares. Eu sabia onde era o depósito no guarda-roupa.
Para cometer um “meio-delito”, contei pra mãe uma parte da história:
– Oh! Mãe! Será que tem problema se eu pegar uns dólares emprestados lá do armário pra comprar “coisa” de jogo, os guris vão me pagar depois.
Como a minha mãe tinha uma vida agitada de mãe, doméstica, estudante e enfermeira, não perguntou qual era o valor e nem “quando era o depois” e respondeu:
– Acho que não tem problema filho, eles sempre pagam direitinho.
Entendi como autorizado.
Alguns dias depois, cheguei em casa com a camisa número 5 e empolgado fui mostrar pro pai. Como ele já tinha doado parte do pagamento da inscrição de um campeonato praiano, era sabedor da situação financeira do nosso clube. Nem elogiou a camisa:
– Com que dinheiro vocês compraram essas camisas?
Desportista, ele tinha noção do preço dos artigos esportivos e a galera não tinha sido modesta na escolha da marca.
Depois da cara de espanto e da longa gaguejada, expliquei a origem dos recursos.
– Levei um sermão enorme, proporcional ao crime doloso e também pela tentativa e acerto ao ludibriar a mãe. Ainda bem, que logo chegou a hora do pai sair pro trabalho e o discurso terminou.
Fiquei com a consciência pesadíssima e envergonhado.
No meio da tarde o telefone tocou. Eu tava escondido no quarto, quando minha mãe me chamou. Era o pai no telefone.
Eu estava certo que o assunto seria um aumento sumário na penitência. Sem rodeios, ele falou:
– Marcelo, onde vocês compraram as camisas?
– Na loja do Julinho, pai.
– Liga pra ele e pergunta se dá pra fazer mais uma camisa, no meu tamanho e com o meu nome.
A intenção dele era ser apenas um torcedor uniformizado, mas recebeu um convite especial para ser o primeiro adulto a jogar no time, quando começamos a enfrentar adversários maiores.
Jogava melhor do que eu e a pegação no pé era grande.
Ano passado, consegui resgatar a camisa que tinha meu nome nas costas. De doação em doação, tinha passado por vários primos e tava guardada na casa de um deles.
Não tenho pretensão de ter um museu com as minhas relíquias, mas aquela camisa faço questão de guardar e é a preferida da minha modesta coleção.

Marcelo Lamas, escritor.

marcelolamas@globo.com

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