esse cara tem me consumido (Ítalo Puccini)

cazuza, vem cá, senta’qui, vâmo conversar. eu sei que tu tá perdido, assim, sem pai nem mãe. eu sei que o que te resta são raspas e restos. e mentiras sinceras. então mente pra mim, vai, pode mentir. mente acreditando na tua mentira. faz isso que tu vai ver como tu vai se sentir melhor. confie em mim, cara, me ame como a um irmão mesmo. como a uma irmã. eu sei lidar com essas coisas. tenho também dezesseis anos e vivo em conflitos que me afastam de todos. brigo com todo mundo mesmo. fico com vários e várias ao mesmo tempo. há quem goste disso, há quem me odeie por isto. mas nem aí, não é mesmo? somos quase maiores-abandonados já. temos de nos virar. não somos pura fama, não é, cazuzinha? por que você tá tão quieto assim? hein? me diz. vem, se abre aqui comigo. a gente meio que ama odiando, né? daí causa essas coisas todas aí nas pessoas. gente que não se garante, que não se satisfaz consigo mesma. a gente não, né, cazuza, a gente tem tudo o que a gente precisa, e mais um pouco ainda, né? a gente vive de pequenas porções de ilusões muito bem construídas, não vive? assim, no lado escuro da vida mesmo. fala, cazuza, pode falar. pode deitar tua cabeça aqui no meu colo e chorar. chorar muito. mas fala também enquanto chora. é bonito isso, alguém chorando e tentando falar, e não conseguindo, e daí fica aquele soluço cortando palavras. isso é muito bonito, cazuza. faz isso pra mim, faz. tô aqui te dando colo e tudo. e, ó, declara guerra a quem finge te amar. chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia, tá? eu te ajudo com isso. eu lembro que tu já me chamou de amor da minha vida. um negócio daqui até a eternidade. eu lembro. me dizia que me podia me pegar escola e ainda me encheria com todo o teu amor. então, cazuza, vê como é fácil? tu sabe que eu tenho tudo o que tu precisa. e mais um pouco ainda. eu posso ser tuas rosas roubadas. posso ser pétala para ti. posso ser espinho. mas eu quero ser tua comida. quero ser todo o amor que houver nessa tua vida. tu me deixa, cazuza, tu me deixa? nosso amor tem que dar certo. não tem nada de desperdiçar blues de djavan nem de buscar ideologias para viver, não. a gente é e tem que ser um para o outro só. a gente sabe se amar. a gente aprende, pode aprender, então. a gente não consegue ficar amigos sem rancor. a gente tem que se amar mesmo que a nossa música nunca mais toque. a gente não pode desperdiçar nosso mel assim, não. a gente tem que se grudar, cazuza, se grudar. proteger o nome um do outro. por amor mesmo. guardar em um codinome. o que tu acha? tu sabe que eu posso ser tua dentro tua orelha fria. posso dizer segredos de liquidificador pra ti. tu sabe. tu sabe que quando tu sai de perto eu penso em suicídio. por mais que tu sempre volte com as mesmas notícias. eu sinto tua falta, cazuza. eu sinto falta de te ter assim no meu colo. sinto falta das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. das nossas noites perfeitas. eu queria poder te negar. mas eu não consigo. e tu sempre volta’ssim pra mim. noite sim, noite não tu tá’qui entre meus lençóis. me fazendo cafuné, me chamando de mulher sem razão. até cantando caetano pra mim, dizendo que eu sou apenas uma mulher. e assim eu não consigo te negar, cazuza. assim eu tenho de ser artista nesse nosso convívio, pr’essa nossa poesia que a gente vive e não vive. boca, nuca, mão. tudo de ti, cazuza. um remédio de ti eu quero. que me dê alegria. que não me deixe assim down. porque daí eu fico assim sem saber o que meu corpo abriga. e tento me esquecer, porque nessas horas pega mal sofrer, tu me diz. eu sei que só as mães felizes, mas a gente também pode ser, não pode? eu sei que tu não pode causar mal nenhum a não ser a ti mesmo. mas pensa um pouquinho mais nisso. te ver assim me deixa mal. tu me causa mal algum, sim, tá vendo? e eu tento aqui te ajudar, assim, te amar mais e mais, mas tu fica assim quietinho no meu colo e me deixa mal. porque eu sei que daqui a pouco, quando tu acordar, tu vai embora, vai pra rua, vai por aí, assim, e eu não sei quando tu vai voltar. e já me dá saudade de quando a gente conversa assim deixando escapar segredos. e eu não sei em que hora dizer que me dá um medo. porque eu preciso dizer que te amo. te ganhar ou perder sem engano, cazuza. eu preciso dizer que te amo. tanto.


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Uma resposta para esse cara tem me consumido (Ítalo Puccini)

  1. Adriana disse:

    Esses que tanto nos falam sem nunca terem falado para nós, esses com quem tanto falamos e conversamos ainda que somente nós entendamos isso, numa solidão nada solitária… senti vontade de escrever uma carta para cada um deles! Adorei!

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